
Como devemos orar? | Kevin DeYoung
06/abr/2026
Este é um tópico de enorme importância para o cristão, aquele que conhece o único Deus verdadeiro, para quem Jesus é seu Salvador, recebeu uma missão no mundo e tem a promessa da vida eterna. Em outras palavras, temos acesso às realidades mais importantes que alguém poderia imaginar. Contudo, “estamos no mundo”, embora não pertençamos a ele. As coisas que permeiam nossa sociedade se insinuam inevitavelmente na igreja e influenciam o povo de Deus. Com a apatia não é diferente.
Às vezes, parece que há uma espécie de relação invertida entre a grandeza de uma verdade e nossa resposta emocional e prática a ela. Quanto maior a verdade (ou conceito ou chamado), tanto menos nos importamos com ela. Talvez isso aconteça porque sermões e estudos bíblicos nunca deixam de falar das coisas mais grandiosas: Deus e a salvação, céu e inferno. Talvez essas coisas tenham se tornado comuns demais, muito familiares. Contudo, seja qual for o motivo, as coisas grandiosas nos dão tédio. Quanto maiores, mais tediosas.
Há mais de 65 anos, A. W. Tozer criticava a devoção evangélica ao que chamava de “o grande deus do Entretenimento”. Em um ensaio provocador, ele observa como a fixação da cultura em geral na diversão e no entretenimento havia corrompido a igreja. Diz ele: “Durante séculos, a igreja se opôs tenazmente a toda forma de entretenimento do mundo, reconhecendo-o pelo que era: um artifício que induzia à perda de tempo, um refúgio contra a voz perturbadora da consciência, um esquema para distrair a atenção da responsabilidade moral”. Ele prossegue dizendo que, em vez de persistir na batalha contra o grande deus do Entretenimento, suportando os abusos que acompanham essa guerra, a igreja juntou-se às forças inimigas. Em seguida, o autor adota um tom especialmente duro (e aqui vale a pena citar o trecho na íntegra):
De modo que hoje deparamos com o espetáculo impressionante de milhões de dólares despejados no trabalho ímpio de proporcionar entretenimento terreno para os chamados filhos do céu. Em muitos lugares, o entretenimento religioso está expulsando as coisas sérias de Deus. Atualmente, muitas igrejas não passam de pouco mais do que uma sala de cinema pobre onde “produtores” de quinta categoria vendem suas quinquilharias com a plena aprovação dos líderes evangélicos que chegam até mesmo a citar um texto sagrado em defesa de sua delinquência. Dificilmente alguém levanta a voz contra ela.1
E pensar que Tozer dizia essas coisas nos anos 1950! Se na época isso já era verdade, o que diria ele dos dias de hoje? Nós nos importamos com coisas que não são importantes. Privilegiamos a diversão. Adoramos no altar do trivial. E o ponto de Tozer é que abandonaríamos essa apatia se alguém levantasse a voz contra nossa devoção a esse grande deus.
Um artigo recente intitulado “Reino de Deus é Plano B de cristão local caso seu partido político preferido o decepcione” diz o seguinte:
LAKE CHARLES, Los Angeles. Guy Tenney, um cristão local, anunciou na segunda-feira que mantém a esperança da vinda do Reino de Deus caso seu partido político o desaponte.
“Por via das dúvidas, se meu partido político não trouxer paz à terra, sempre é possível contar com Jesus”, disse ele pensativo ao abrir a Bíblia para sua devoção matinal, embora tenha passado a maior parte do tempo consultando o Twitter (atual X) para acompanhar as postagens de seus gurus políticos prediletos para entender em que fronte a guerra cultural seria travada hoje. “É bom ter um plano B nessas horas”.
Tenney disse, porém, que não espera que seu partido político predileto o deixe na mão. Salientou que eles têm dinheiro, poder e a promessa de usar o governo para fazer as coisas que ele acha certo.2
É claro que se trata de uma sátira do site Babylon Bee, que vive de apontar as ironias das prioridades cristãs. Boa parte do seu humor gira em torno da nossa percepção comum de que o cristão se mexe, com frequência, movido por coisas que não importam, mas se revela indiferente às coisas que deveriam movê-lo. Outras manchetes deliciosamente cômicas dizem o seguinte:
“Show do intervalo em culto de igreja batista é criticado por mostrar muito tornozelo”
“Cristão não sabe muito bem por que deveria esperar pelo céu se já mora nos Estados Unidos”
“Artista cristão renuncia à fé agora que Jesus já atendeu ao seu propósito de ganhar fama e fortuna”
Seria um exagero e uma injustiça dizer que a igreja não se importa de modo algum com coisas importantes. Pelo contrário, creio que o problema é muitas vezes a ambiguidade a que me referi anteriormente: nós nos importamos muito, mas não nos preocupamos o suficiente para nos mexermos; sabemos o que é o bem, mas muitas vezes não o consideramos muito empolgante ou envolvente.
Vou propor um teste: Por quais das seguintes práticas cristãs fundamentais sua igreja é apaixonada?
Envolvimento com a Escritura: Sua igreja lê a Escritura regularmente, valoriza a Palavra, aplica-a, obedece-a e fala de acordo com ela? A Bíblia é parte central da vida da igreja?
Oração: Sua comunidade é caracterizada pela oração, não apenas durante os cultos, mas também ao longo da semana? Mais de 5% dos membros de sua igreja comparecem às reuniões de oração, supondo-se que haja reuniões de oração em sua igreja?
Generosidade: Sua comunidade é conhecida pela farta generosidade, e não por ser uma igreja de consumidores? As pessoas organizam sua vida em torno da prática de dar em vez de buscarem mais sucesso e riqueza? A generosidade evidente em sua igreja é de tal modo irresistível que atrai outros a Cristo?
Envolvimento com a igreja: A frequência do membro típico da igreja é de três ou mesmo (segure-se) quatro vezes ao mês? Você diria que as pessoas de sua igreja são pessoas comprometidas?
Evangelização: Você descreveria sua igreja ou comunidade cristã imediata como uma entidade seriamente preocupada em apresentar outros a Jesus Cristo?
Missão: O membro típico da sua igreja sabe o que é a Grande Comissão? Se sabe, quando foi a última vez que sua igreja abordou sua estratégia de contribuição para a realização da Grande Comissão? Você poderia citar três missionários enviados por sua igreja? Com que frequência as necessidades do mundo em geral ganham destaque?3
Insisto que nossas comunidades se preocupam efetivamente com várias coisas importantes, e não tenho a intenção de menosprezar esse fato. Tenho certeza de que nossas igrejas têm feito um ótimo trabalho em algumas dessas áreas — em algumas delas com sucesso moderado, em outras, nem tanto. Contudo, muitos de nós não diríamos que nossas comunidades são zelosas e sinceras.
Notas
1 A. W. Tozer, The root of the righteous (Harrisburg: Christian Publications, 1955), p. 32-3.
2 Local Christian counting on Kingdom of God as backup plan just in case favorite political party fails him”, The Babylon Bee, 8 de julho, 2019, https://babylonbee.com/.
3 As categorias relativas à leitura da Bíblia foram tomadas de Kenneth Berding, Bible revival: recommitting ourselves to one Book (Bellingham: Lexham, 2013). As perguntas sobre contribuição foram tiradas do site Generous Giving: https://generousgiving.org/who-we-are.
Trecho extraído da obra “Superando a apatia“, de Uche Anizor, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2026, p.33-36. Publicado no site Cruciforme com permissão.
![]() | (PhD, Wheaton College) é professor de teologia na Talbot School of Theology, da Biola University. É autor de diversos livros, incluindo The goodness of God and the gift of Scripture e How to read theology. |
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![]() | Nos últimos anos, especialmente com os reflexos do isolamento social e das incertezas de nossa cultura acelerada, vimos um aumento alarmante no desengajamento e na frieza espiritual. Para muitos cristãos, a oração, a comunhão e a leitura da Bíblia tornaram-se fardos pesados. A exaustão e a falta de motivação parecem inevitáveis. Mas será que devemos nos conformar com essa letargia? Em Superando a apatia: a esperança do evangelho para a frieza espiritual, o teólogo Uche Anizor mostra que a raiz desse problema é ainda mais profunda. Dialogando com a cultura pop, a psicologia e a tradição cristã, ele explora a natureza dessa exaustão moderna, identifica suas causas principais — da dúvida e decepção às distrações digitais — e oferece passos práticos para quebrar o ciclo da indiferença. Seja para recuperar o vigor da própria fé ou para aconselhar jovens, estudantes e liderados que estão presos na inércia, este livro é um recurso indispensável. Descubra como a esperança do evangelho pode curar o esgotamento e transformar a apatia espiritual em autêntico zelo cristão. |
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