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A doutrina da criação ex nihilo — o ato divino da criação de todas as coisas a partir do nada — fixa para sempre a distinção ontológica entre criador e criação. Este mundo é o teatro da glória divina — ele não é divino nem demoníaco. Sem nenhuma necessidade interna ou desejo de autorrealização, o Deus triúno criou o surpreendente grão de poeira e água em que habitamos junto com bilhões de galáxias por puro amor a ele — e a nós. Ele o criou de forma total para a sua glória, mas não precisava demonstrar sua glória dessa maneira. O amor e a glória tornam-se quase indistinguíveis como a motivação e o objetivo final do ato criativo de Deus. A glória de Deus é seu amor, e seu amor é sua glória. Assim, longe de ser arbitrário, o ato da criação fundamenta-se no discurso livre e, portanto, amoroso de Deus: do Pai, no Filho, pelo Espírito.

A ausência de forma e o vazio (tohu wabohu) que se seguiram ao anúncio da criação da matéria realizada por Deus não expressa uma deidade hipostasiada, como nos mitos da criação babilônicos, mesopotâmicos e egípcios.[1] Considerado, de modo geral, a obra literária mais antiga, o Épico de Gilgamesh (2100 a.C.) apresenta várias semelhanças com os relatos bíblicos de Adão e Eva no jardim e o Dilúvio de Noé.[2] De acordo com Enuma Elish, o relato da criação mais influente, a divindade fundadora — Tiamat, a deusa do oceano — é a fonte da criação. Ela é uma serpente gigantesca, a personificação do estereótipo feminino: voluptuosa e caótica. O processo da criação a partir do caos consiste em uma série de escaramuças violentas entre os deuses em que Tiamat, a própria dragoa original, é assassinada.[3] Os mitos egípcios da criação variam de maneira considerável de acordo com o período e o lugar. Entretanto, com a possível exceção da versão centrada em Tebas, as águas caóticas e sem vida foram personificadas na teologia egípcia pela deidade Nu.[4]

No contexto desse ambiente pagão, os capítulos iniciais da Bíblia assumem a aparência de uma polêmica evidente. Aponta-se com certa frequência que existem paralelos entre Gênesis 1 e 2 e Enuma Elish (para não mencionar Gilgamesh). Afinal, uma boa polêmica requer alguns paralelos. Entretanto, os contrastes não poderiam ser maiores.[5]

O caos em Gênesis 1 é apenas a matéria inerte, chamada à existência, mas ainda não formada ou produtiva de maneira plena. O oceano é apenas água, e os céus e as luzes no firmamento são apenas fenômenos naturais visíveis ao olho nu de um agricultor. Quem leva a sério esses dois capítulos de Gênesis não olha mais para o céu e o chama pelo nome divino Nut, nem ao firmamento chama Shu, ou à terra, Geb, ou ao sol, Rá. Repare no hino de Jó sobre o ato da criação realizado por Yahweh:

Marcou um limite circular sobre a superfície das águas,

onde a luz e as trevas se confinam.

As colunas do céu tremem;

assustam-se com a sua ameaça.

Com o seu poder fez sossegar o mar;

com o seu entendimento abateu o monstro Raabe.

Com seu sopro clareou o céu;

sua mão feriu a serpente veloz.

Essas coisas são os seus atos mais simples.

Como é leve o sussurro que ouvimos dele!

Mas quem poderá entender o trovão do seu poder? (Jó 26.10-14)

As primeiras linhas reverberam o Espírito pairando sobre as águas no papel judicial de separar e demarcar com mestria matemática. “Raabe” é um símbolo do Egito — a “serpente veloz” — cuja cosmologia era tão inútil quanto sua política opressora. Só Yahweh é soberano. “Com seu sopro” (berukho) é uma possibilidade de tradução, e, apesar de o termo “vento” ser talvez a melhor tradução, “poder”, “entendimento” e “vento” são associados muitas vezes com a atividade do Espírito nas Escrituras Hebraicas. Contudo, todas essas operações são apenas “seus atos mais simples”. Ouve-se apenas um breve sussurro, nem sequer se pode interpretar “o trovão do seu poder”.

Jó continua a polêmica em torno de Gênesis, como o faz Isaías no contexto do juízo final promovido por Yahweh: “Os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó. O teu orvalho é orvalho de luz, e a terra dará à luz os seus mortos”. Então o Senhor vai “… castigar os moradores da terra por causa da sua maldade; e a terra revelará o sangue que nela está e não encobrirá mais os seus mortos. Naquele dia, o Senhor castigará com sua espada destruidora, grande e forte, o Leviatã, a serpente fugitiva; o Leviatã, a serpente veloz, e matará o dragão do mar” (Is 26.19—27.1). O Leviatã, o eco da divindade pagã em forma de serpente, não é nenhum deus; ele não é nada mais que uma criatura e se encontra de forma total sob o poder soberano de Yahweh (veja tb. Sl 74.12-14; 104.26). A cabeça da serpente será por fim esmagada de uma vez por todas (Ap 12.7-9), como Deus prometeu em Gênesis 3.15.

Falta ao relato bíblico da Criação, a violência intrigante, ainda que vulgar, dos rivais. O mal, personificado em Satanás, não é alguma coisa; não tem existência fora da criação de Deus, sempre à espreita sob a realidade e competindo pelo domínio. Como já foi destacado antes, nem mesmo o caos, em Gênesis 1.2, é uma força maligna. Não existe significado moral na expressão “sem forma e vazia”. A criação, nesse ponto, era apenas uma boa casa à espera de ser transformada em um lar belo e bem ordenado.

O mal não é ontológico, e sim moral; ele não é necessário, apenas o resultado da rebelião voluntariosa. Ele consiste na corrupção do que é bom em essência, a depravação de agentes pessoais que abusam de sua liberdade a fim de dar as costas a seu bom Criador. Até mesmo os demônios eram anjos bons que se tornaram maus (como o próprio Lúcifer). Da mesma forma que o Deus triúno planejava nossa redenção por causa da queda, os demônios reuniam-se com seu líder para maquinar a derrocada do reino de Deus. O mundo não surge de uma divisão ontológica entre divindades ou forças boas e más, mas da liberdade própria do Deus completo em si mesmo que não precisa de nada nem de ninguém, pois ele é quem sempre será: Pai, Filho e Espírito Santo. Aqui, ainda não há nenhuma nota discordante de tragédia, apenas comédia — o belo som da risada entre conspiradores em um empreendimento de amor criativo.

Gênesis 1 apresenta a seguinte subtrama:

Versículo 1: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”, um resumo abrangente da criação ex nihilo. O Pai criou o mundo por meio do Filho que “… sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder…” (Hb 1.3). Na verdade, “pela fé, entendemos que o universo foi criado pela palavra de Deus, de modo que o visível não foi feito do que se vê” (11.3).

Versículo 2: Caos. Mais uma vez, não algo divino — divino, demoníaco ou as duas coisas —, apenas o tipo de coisa que se espera do estúdio de um artista. O caos é apenas o material criado e chamado à existência ainda sem ter recebido a forma de cosmo ordenado. O Espírito pairava sobre as águas, para organizá-lo e fertilizá-lo e também para cuidar dele.

Versículos 3-10: “… Haja […]. E houve…”. Esse conjunto de acontecimentos combina com o tipo ex nihilo: a criação da luz, da terra e do firmamento. Cada um tem sua separação, que transforma os dois em algo sem colocá-los em oposição dualista: a luz foi separada em dia/noite; a terra separada em oceanos/continentes; o firmamento separado em céu/terra.

Contudo, a partir desse ponto, nos versículos 11-25, a narrativa registra um tipo diferente de ato de fala. Ao lado do fiat divino, “Haja luz”, existe a fala contínua que mantém a criação reverberando com a palavra divina criadora de vida:

“… Produza a terra […]. E a terra produziu…”. Isto também procede de Deus, mas é diferente. Sob o tópico de “… Produza a terra…” a vegetação produz as próprias sementes, as águas se enchem de coisas pululantes (no hebraico literal) e os pássaros cruzam a vastidão do céu. Aqui não há indicação da criação a partir do nada; o ato inicial já havia ocorrido. Ao contrário, agora nesses atos de fala, concebe-se a criação crescendo e se propagando a partir de si mesma. Todo surgimento de uma folha agora parece um novo milagre de Deus, ainda que não seja um milagre, pelo menos no sentido de um fiat (“haja”); em vez disso, ela resulta de uma obra espantosa do Espírito na natureza. As duas coisas resultam do discurso de Deus, mas uma trouxe o mundo a existência enquanto a outra o conduz a maturidade. Nós nos depararemos de novo com essa distinção ao longo deste estudo: o tipo de palavra fiat (um ato imediato de criação) e o tipo de diretiva “… Produza a terra…” (a obra do Espírito na criação para realizar o efeito pretendido pela ordem do Pai, no Filho).

O Espírito de creatio continua e as críticas pós-modernas do dualismo

A própria Escritura ensina a doutrina da creatio continua, o progresso contínuo do mundo natural após a obra fiat da criação ex nihilo. As sementes não são formas eternas, nem mesmo ideias na mente de Deus, e sim atos de fala — as palavras plantadas no mundo pela próprio Verbo e levadas à maturação pelo Espírito. Lida-se aqui com o Deus vivo, não com um morto que apenas “liga” um botão para criar a matéria, mas com aquele que se esforça continuamente com a criação para obter o cosmo a partir do caos. Como João Calvino interpreta o texto, a expansão do Espírito “sobre os abismos […], ou sobre a matéria informe” demonstra “não apenas que a beleza do mundo agora visível é mantida graças à força vigorante do Espírito, mas também que, antes de existir tal adorno, o Espírito já operava nutrindo aquela massa confusa”. Este é um testemunho da deidade do Espírito, acrescenta ele.

De fato, está completamente fora do alcance das criaturas o que a Escritura atribui ao Espírito: e nós mesmos o aprendemos em certa medida na experiência da piedade. Ele é aquele que, difuso em todas as partes, a tudo sustenta, vigora e vivifica, no céu e na terra. Por isso mesmo, excede a todas as criaturas, visto não ser circunscrito por nenhum fim, mas transfundindo em tudo o seu vigor, inspira neles a essência, a vida e o movimento, o que claramente é divino.[6]

Desse modo, Calvino deriva da criação uma forte defesa da deidade do Espírito. A despeito das pretensões de ser “científica”, a cosmovisão que permeia o Ocidente atual aproxima-se mais da mitologia pagã antiga. Consideram-se, de modo geral, que “são assim mesmo”, naturais, os conflitos violentos entre os homens e a natureza, e entre os próprios homens — a guerra entre os sexos, as classes, as raças, e assim por diante. Na verdade, a narrativa bíblica torna a natureza natural ao remover qualquer resquício do mal escondido na matéria. De modo diferente do caos natural de Gênesis 1.2, o caos moral foi introduzido com a admissão da serpente no santuário e com a decisão do vice-rei de Deus (Adão) de ser alguém diferente do que lhe havia sido ordenado pelo Pai, no Filho, por meio do Espírito. A partir de então, todas as coisas passaram a girar em torno da morte, não como parte natural da obra do Espírito de levar a palavra do Pai à perfeição, mas pela rebelião humana e a morte dos emissários régios como juízo. Tomei alguma liberdade ao verter ruakh por Espírito Santo nessas passagens, particularmente em Gênesis 1.2, com a expressão ruakh ’elohim.[7] Entretanto, falta um poder explicativo à expressão “vento da parte de deus/dos deuses” à luz desse acontecimento importante; além disso, creio que a interpretação canônica requer o “Espírito Santo” como a tradução adequada.[8] Quando se lê que Jesus soprou sobre os apóstolos e pronunciou as palavras: “… Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22), todas as ocorrências do AT em questão recebem uma luz mais plena.[9]

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Mesmo no único ato de criação ex nihilo, o Pai pronuncia sua palavra poderosa no Filho, que se tornará uma criatura encarnada, e o Espírito atua na criação para a conclusão da palavra criadora. É significativo que a doutrina bíblica represente o discurso vivo de Deus como o meio pelo qual a Trindade cria o mundo. Quão diferente da analogia da força física aplicada a um objeto em particular, de um relojoeiro talentoso ou do mundo que causa a si mesmo é a analogia do Pai falando no Filho e realizando a frutificação do efeito desse discurso pela agência do Espírito. Como resultado desse ato de fala trinitário, a própria criação responde com voz de louvor:

Os céus proclamam a glória de Deus,

e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.

Um dia declara isso a outro dia,

e uma noite revela conhecimento a outra noite.

Sem discurso, nem palavras;

não se ouve a sua voz.

Mas sua voz se faz ouvir por toda a terra,

e suas palavras, até os confins do mundo (Sl 19.1-4).

O salmista move-se facilmente por entre o testemunho da natureza e o da revelação histórica de Deus (v. 7-14). A relação entre Deus e mundo é análoga, então, a uma conversa entre pessoas. A criação não é o transbordamento do ser de Deus, mas sim o efeito da palavra de Deus. É claro que o poder do discurso é assimétrico: a palavra de Yahweh jamais volta para ele sem cumprir o propósito desejado (Is 55.11). Contudo, trata-se de um relacionamento pactual genuíno, com a criatura respondendo de forma adequada por causa da mediação da Palavra eterna e das energias libertadoras e frutificativas do Espírito no íntimo.

Há mais um tipo de ato de fala realizado por Deus em Gênesis 1, e mais uma vez o papel do Espírito encontra-se pelo menos implícito:

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre o gado, sobre os animais selvagens e sobre todo animal rastejante que se arrasta sobre a terra. E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: “Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gn 1.26-28).

Assim, podem-se distinguir esses três tipos de atos de fala como fiat (“… Haja […]. E houve…”), frutificação (“… Produza a terra […]. E a terra produziu…”) e fidelidade (possibilitar o crescimento, a multiplicação, o governo e o domínio da humanidade como vice-rei de Deus). Em todos esses discursos, o Espírito é o agente aperfeiçoador.

O “fôlego da vida” (nishmat khayyim) soprado por Deus em Adão (Gn 2.7) procede do Espírito, mas não deve ser confundido com ele. Como afirmou John Owen, o nome Espírito de Deus é “pessoal” ao passo que o sopro de Deus é “metafórico”. O sopro de vida em Adão foi um ato divino, ao passo que o Espírito é uma pessoa de Deus.[10] “O corpo de todos nós é parte essencial de nossa natureza”, observou Owen, “e por sua união com a alma somos constituídos indivíduos”. Na verdade, “todo ato moral realizado por nós é o ato da pessoa toda”.[11] Vê-se mais uma vez a distinção ontológica decisiva entre criador e criatura, não entre espírito e matéria. O Espírito incriado sopra nas narinas de Adão o sopro de vida da criatura para animar seu corpo glorioso.

Na concepção bíblica, nada na criação é divino — nem mesmo os anjos ou a alma humana. Há o Deus triúno, e existem todas as outras coisas: criador e criação, com nada entre eles. Yves Congar observa:

Ruah-sopro não se opõe em nenhum sentido ao “corpo” ou “corpóreo”. Mesmo no grego profano e na linguagem filosófica, pneuma expressa a substância viva e geradora difusa entre os animais, as plantas e todas as coisas. Trata-se de uma corporeidade tênue e não de uma substância incorpórea. O ruah-sopro do Antigo Testamento não é desencarnado. Em vez disso, ele é o que anima o corpo. O oposto da “carne”; entretanto, “carne” não significa o mesmo que “corpo”. A “carne” é apenas uma realidade terrena do homem, caracterizada por ser fraca e corruptível. […] Os gregos pensavam em categorias de substância, mas os judeus se preocupavam com a força, a energia e o princípio da ação.[12]

Desse modo, quando o Novo Testamento estabelece o contraste entre a carne e o Espírito, não se trata da diferença entre corpos de essência material, espiritual ou intelectual, e sim de um contraste escatológico entre a era presente, sob o domínio do pecado e da morte, e a era vindoura — inaugurada por Cristo com a ressurreição dos mortos. A era vindoura é a nova criação e também a era do Espírito, pois o Espírito Santo está levando a realidade da criatura à esfera da vida escatológica de Cristo.

A distinção qualitativa entre Deus e o mundo, destacada pela doutrina da criação ex nihilo, assegura que o cosmo é guardado com amor e liberdade divinos em lugar da necessidade e violência ontológica. A criação não é uma emanação necessária ou um transbordamento do ser a partir de uma fonte divina até alcançar anjos e formigas. A multiplicidade não resulta de uma queda ontológica da unidade do ser, porque a fonte de todo ser é o Deus triúno, com a pluralidade de pessoas tão ontologicamente real quanto a unidade da essência, e pelo fato de a diversidade das criaturas pertencer à bênção divina (“era bom”) na criação. Quaisquer dualismos opostos, emergentes mais tarde na história, resultam do orgulho voluntário dos seres humanos e da sua recusa de se fundamentarem nesse livre ato de amor divino e de paz. Em outras palavras, a opressão do espírito sobre o corpo, do homem sobre a mulher, do rico sobre o pobre, e assim por diante, é ética, e não ontológica. Considerá-los de alguma forma fundamentados em “como as coisas são” pela ação da santíssima Trindade na criação é algo blasfemo. Em vez disso, eles resultam do orgulho humano em oposição à ordem de Deus.

Dizer que o Espírito Santo é o Doador da vida significa afirmar que, embora ele não dependa da criação, a criação depende dele. O Pai trouxe a criação à existência pela fala; o Filho é a imagem arquetípica de Deus, à imagem de quem nós fomos criados, e Adão tornou-se uma “alma vivente” (nefesh khayyah) quando Deus soprou em suas narinas “o fôlego da vida” (lit., “o sopro de vidas”). A mesma ideia é apresentada em 2Timóteo 3.16 (ESV), em que se diz que as Escrituras são “sopradas por Deus” (theopneustos), ou quando Jesus soprou sobre os discípulos e eles receberam o Espírito Santo (Jo 20.22). Portanto, a alma não é, portanto, a parte eterna, imortal e divina dos seres humanos, mas integra-se à criação tanto quanto unhas e fígado. A existência de Adão como corpo físico precedeu sua dotação de uma alma — isto é, antes de ele tornar-se um “ser vivo”. Já reconhecemos o Espírito como quem cria a ordem a partir do caos e reveste o representante humano com dignidade régia e beleza. (Posteriormente, os sacerdotes serão adornados de modo similar, representando o papel dado a Adão no princípio.)

O Espírito dá o beijo da vida aos mortais na criação, preserva-os na vida natural, retira-nos da morte espiritual com a regeneração, habita em nós e nos renova com a vida sobrenatural. O Espírito ressuscitará nossos corpos dos mortos e nos glorificará por meio de suas energias aperfeiçoadoras. Tanto a vida natural quanto a sobrenatural procedem do Pai, no Filho, pelo Espírito.


[1] Stephanie Dalley, Myths from Mesopotamia: Creation, the Flood, Gilgamesh and others (Oxford: Oxford University Press, 2000).

[2] Andrew George, The epic of Gilgamesh (New York: Penguin, 1959).

[3] W. C. Lambert; S. B. Parker, Enuma Eliš: the Babylonian epic of Creation (Oxford: Oxford University Press, 1966).

[4] Veja, p. ex., Douglas J. Brewer; Emily Teeter, Egypt and the Egyptians (Cambridge: Cambridge University Press, 2002), esp. cap. 6; George Hart, Egyptian myths (Austin: University of Texas Press, 2004).

[5] O que serve apenas para nos lembrar da tragédia dos neoateus e da “ciência da criação” em advogar de modo semelhante que essa literatura surpreendente e divina não diz respeito aos “dias da criação”.

[6] A instituição da religião cristã, tradução de Carlos Eduardo Oliveira; José Carlos Estêvão (São Paulo: Ed. Unesp, 2008), 1.XIII.14-15 (grifo do autor).

[7] Veja Robert W. Jenson, The works of God, in: Systematic theology (New York: Oxford University Press, 2001), vol. 2, p. 11-2: “Se a expressão pudesse ser vertida como ‘vento de Deus’, como o fazem algumas versões atuais”, observa Jenson, “mais uma vez a narrativa seria mítica”, mas essa tradução indicaria apenas o preconceito dos tradutores. Não há razão para crer que por ruach Elohim não se pretendia indicar o Espírito de Deus”, 2 vols.

[8] Kuyper, Holy Spirit, p. 29.

[9] Ibidem. Kuyper está absolutamente certo ao afirmar que a mesma reticência foi aplicada ao Filho. Seria infundado considerar as referências no Antigo Testamento à palavra (dabar) como à pessoa de Jesus de Nazaré? “E à réplica: ‘Nossa interpretação é tão boa quanto a sua’, respondemos que Jesus e os apóstolos são nossas autoridades; a igreja recebeu sua confissão dos lábios deles” (p. 28). Além disso, na aplicação à terceira hipóstase, Kuyper estabelece o ponto: “falar a respeito de um Espírito de Deus que não seja o Espírito Santo significa transferir à sagrada Escritura um conceito puramente ocidental e humano” (p. 29). O raciocínio de Kuyper está absolutamente certo. A teologia cristã não tem nenhum motivo para adotar uma interpretação pós-iluminista do ruakh nem um conceito pós-iluminista do logos. O NT interpreta o AT.

[10] A discourse concerning the Holy Spirit, in: William H. Goold, org., The works of John Owen, 16 vols. (Edinburgh: Banner of Truth, 1965), vol. 8, p. 101.

[11] Ibidem, p. 420.

[12] I believe in the Holy Spirit, tradução para o inglês de David Smith, Milestones in Catholic Theology (New York: Crossroad, 1999), vol. 1, p. 3.

Trecho extraído da obra “Redescobrindo o Espírito Santo“, de Michael Horton, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2018, p. 48-56. Traduzido por Rogério Portella e James Reis. Publicado no site Cruciforme com permissão.

Michael Horton é professor de apologética e teologia sistemática no Westminster Seminary. É formado pela Biola University, mestre pelo Westminster Seminary e obteve seu pós-doutorado pela University of Coventry e Wycliffe Hall, em Oxford. É autor de vários livros, incluindo “Evangelicals, Catholics and Unity” e “Rediscovering the Holy Spirit: God’s Perfecting Presence in Creation, Redemption, and Everyday Life”, a serem publicados por Edições Vida Nova.
Em Redescobrindo o Espírito Santo, o autor, pastor e teólogo Michael Horton relembra como a obra do Espírito Santo perpassa toda a história da redenção, e com isso também nos ajuda a manter o foco direcionado para Cristo.

Mesmo ao desafiar a associação que se faz popularmente da obra do Espírito com as operações extraordinárias de Deus — o que faz estreitar o repertório da ação do Espírito —, Horton relembra que o Espírito Santo é uma Pessoa ativamente envolvida no cotidiano da nossa vida.

Publicado por Vida Nova.

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