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Recentemente me deparei com uma figura interessante. Era uma garota pequena na clássica “posição do pensador” – mão encostada no queixo, olhos contemplativamente encarando o espaço. O texto ao lado da imagem dizia: “Se não ensinarmos nossas crianças como pensar, a religião irá ensiná-las a não fazê-lo”. A ideia, obviamente, era a de que crianças que crescem em ambientes religiosos passam por lavagem cerebral.

Meu primeiro pensamento ao ver a imagem acompanhada de tal texto foi: “Quem quer que tenha escrito isso, certamente não passa muito tempo ao lado de crianças”. Para aqueles que não sabem, eu dou estudo bíblico para o Ensino Médio (em parte do meu tempo) de uma escola cristã particular (no restante do tempo, sou voluntário em alguns grandes ministérios, então sou muito grato pelas suas contribuições). Meu desejo é formar discípulos de Jesus Cristo bem informados e entusiasmados. Eu gasto incontáveis horas estudando e desenvolvendo lições para alcançar esse objetivo. Trabalho duro para ser criativo e uso uma ampla variedade de meios de informação para manter os estudantes engajados. Eu entro na sala de aula todos os dias, empolgado com o que nós discutiremos e trabalharemos. Da perspectiva de quem quer que tenha feito essa imagem, eu sou o pior tipo de criminoso – um manipulador profissional. Além do mais, me sinto como um orador moderadamente capaz, o que me torna ainda mais perigoso. Essas crianças – algumas foram criadas na igreja e educadas em escolas cristãs por toda sua vida – são colocadas em minhas mãos. Elas não pensam por si mesmas porque a religião as ensinou a não fazê-lo, certo? Sem dúvida, alguns de vocês devem estar à minha frente e, provavelmente, começaram a gargalhar. Nada pode estar mais distante da verdade.

Tenha em mente que estes são estudantes de 16 a 18 anos de idade. Eles estão quase no fim de seu tempo em casa, na escola regular, nos grupos de jovens, etc. Você pode dizer que eles “passaram pelo processo”. Ainda assim, pela minha experiência, eles não estão mais dispostos a abraçar cegamente o cristianismo do que qualquer outra pessoa. Vou mais longe ao dizer que alguns deles estão mais aborrecidos com o cristianismo, ou qualquer outra religião, do que muitos daqueles que não cresceram em uma igreja ou não foram educados em uma escola cristã. Pergunte a qualquer um que pregue ou lidere um grupo de louvor para ganhar a vida. Eles lhe dirão que estimular um grupo de crianças cristãs em idade escolar é quase tão fácil como misturar concreto com um palito de picolé (e muito menos divertido). Minha questão é: eles ESTÃO pensando por si mesmos, e grande parte deles – provavelmente a maioria (de acordo com estatísticas que citarei em breve) – ainda não abraçou as ideias cristãs. E isso me leva ao segundo pensamento que tive ao olhar para aquela imagem: “De onde a maioria dos ateus que eu conheço vem?”. Resposta: de ambientes religiosos. Será que eles pensam ser especiais – os únicos inteligentes o suficiente para resistir à lavagem cerebral?

O comediante de stand up Mike Birbiglia faz um bom trabalho ao valer-se de seu crescimento em uma escola católica. Ele satiriza: “Você sempre pode dizer se uma pessoa foi à escola católica quando criança, porque ela será ateia”. As pessoas riem porque, como toda boa piada, há uma dose de verdade envolvida. Se alguém no auditório soubesse (ou mesmo pensasse) que as pessoas que vão à escola católica comumente permanecem cristãos fiéis a Deus, a piada teria perdido o sentido. O Barna Group recentemente fez uma pesquisa de 5 anos que aponta que “aproximadamente três em cada cinco jovens cristãos (59%) se afastam permanentemente ou por algum tempo da vida eclesiástica depois de atingir 15 anos de idade” [Link em inglês]. Há um grande número de razões fornecidas pelos entrevistados, mas cada razão reflete, ao contrário do que a imagem sugere, que eles estavam pensando criticamente por si mesmos.

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A frase “Se nós (os não religiosos) não ensinarmos nossas crianças como pensar, a religião irá ensiná-los a não fazê-lo”, revela, na melhor das hipóteses, falta de experiência com os jovens. Sem dúvida, se você for visitar uma classe de escola dominical para crianças de 4 anos, elas estarão alegremente repetindo tudo que o professor as ensinar. Mas por que não acompanhar o mesmo grupo de crianças durante sua adolescência e juventude e ver o que acontece? Eu estou te dizendo: as coisas mudam. Na pior das hipóteses, o sentimento expresso na frase demonstra uma terrível desconexão com a realidade e/ou um desejo de simplesmente estimular o drama pelo drama.

Como cristãos, não estamos livres das responsabilidades. Uma consideração atenta do que eu expus acima não deve permitir que nos sintamos exonerados. Não podemos dizer “vê, nós não estamos fazendo lavagem cerebral, então nossas mãos estão limpas. Nós não somos o problema”. A premissa mais básica, escondida sob o sentimento expresso na imagem, é verdadeira: algo ou alguém irá dar forma ao pensamento de nossos jovens. Por essa razão, a Igreja não pode negligenciar o ensino intelectual, particularmente quando se trata dos mais jovens, para os quais o foco do ensino tende a repousar apenas sobre suas necessidades sociais e emocionais. Charles Malik disse muito bem: “O problema não é apenas ganhar almas, mas salvar mentes. Se você ganhar o mundo todo e perder a mente do mundo, você logo irá descobrir que jamais o ganhou”. Sendo assim, de alguma forma, somos um pouco culpados pelo que a imagem nos acusa. Mas não porque dedicamos nosso tempo a ensinar crianças a não pensar. Ao contrário, nós simplesmente ignoramos o ministério de ensiná-los intelectualmente. Fizemos disso um tipo de virtude separada, não espiritual. Antes que você pense que estou dando muita ênfase a isso – “Deixa disso, cara. Alma e coração são tudo que realmente importa, e toda sua apologética tenta fazer disso uma questão da mente, o que não é,” – te deixarei com as palavras de Jesus: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento” (Mt 22.37-38, ênfase acrescentada).

Traduzido por Felipe Wieira e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original aqui.

Jason Wisdom é casado com Brandy e têm dois filhos. É missionário da RYFO.org e foi vocalista da banda Becoming the Archetype no período de 1999-2011. É mestre em ministério cristão pela Liberty University e bacharel em história pela Truett McConnell College.

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