Como usar o método de estudo critico para compreender os livros bíblicos | Merrill C. Tenney

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Algumas palavras do vocabulário acadêmico dos pensadores cristãos tiveram o mesmo destino do infeliz homem que desceu de Jerusalém para Jericó. Ele caiu nas mãos de assaltantes que o espancaram e saquearam, deixando-o quase morto na beira do caminho; então, todos os transeuntes olhavam-no com desconfiança e passavam ao largo o mais depressa possível. Entre essas palavras está o termo “crítico”, pois há tempo tem sido associado com os métodos de estudo adotados por um racionalismo hostil[1] que caiu em descrédito nos círculos evangélicos. Não obstante, trata-se de uma palavra boa e útil, e o método que ela descreve é perfeitamente legítimo quando empregado com os motivos apropriados. O estudo crítico não implica necessariamente uma dissecação do texto com o propósito de expor seus erros, mas, sim, um exame apurado a fim de que o estudioso possa verificar o que está por trás dele e quais evidências fornece em favor de sua própria confiabilidade.

O estudo crítico trata de dois campos principais: o campo histórico, ou alta crítica, e o campo textual, ou baixa crítica. Os termos “alta” e “baixa” não se referem a qualquer superioridade ou inferioridade particular entre os campos; em vez disso, referem-se às esferas de origem. A baixa crítica trata da transmissão do texto do documento sob consideração. Procura determinar se o texto que o autor original escreveu foi transmitido exatamente como foi manuscrito, ou se o texto sofreu, durante o processo de cópia, alterações que tenham mudado ou pervertido seu significado. É óbvio que, se a Bíblia é a palavra de Deus, então ela é confiável somente na medida em que seu texto original foi acuradamente preservado nos manuscritos e traduções atualmente existentes.

A alta crítica se interessa pelas pessoas, pelas forças e pelas condições que ocasionaram a produção do texto. Sua função pode ser descrita de modo mais claro por meio de uma ilustração. Suponhamos que durante o processo da limpeza de um sótão fosse descoberta uma carta supostamente escrita por Abraham Lincoln, na qual ele dizia que acabara de receber uma mensagem radiofônica da Inglaterra referente às relações diplomáticas com os Estados Unidos. Essa carta seria declarada de imediato uma falsificação, pois Abraham Lincoln jamais poderia ter escrito tal coisa, uma vez que as transmissões pelo rádio ainda não existiam na metade do século 19. Semelhantemente, se um documento antigo contém uma referência que subentenda uma condição ou uma corrente de pensamento que, conforme se sabe, definidamente não existia quando esse documento foi supostamente escrito, ele será considerado suspeito de falsificação.

Contudo, os resultados do estudo crítico não precisam ser sempre negativos. Imaginemos que a carta de Abraham Lincoln não contivesse nenhum anacronismo[2] tão claro como o mencionado acima, mas que revelasse alguma ligação diplomática anteriormente desconhecida entre esse presidente e a corte inglesa. Um escrutínio crítico cuidadoso poderia abrir um novo horizonte de conhecimento histórico que talvez alterasse completamente os pontos de vista atuais da história sobre o período de Abraham Lincoln. Assim, a crítica pode tanto fortalecer como destruir valores, quando ela é apropriadamente empregada. O julgamento a respeito do que poderia ter sido escrito ou não durante determinado período não deve ser limitado pela ignorância a respeito desse período.

Os perigos envolvidos no método crítico, todavia, nunca devem ser perdidos de vista. Quando esse método é empregado exclusivamente por sua própria causa, a fim de inventar alguma nova hipótese ou divisão, ou com o propósito de desacreditar um documento que contém verdades desagradáveis ao crítico, torna-se mais um perigo do que uma vantagem. O método crítico de comparar evidências e então deduzir conclusões sem dúvida é legítimo. Em contrapartida, a suposição subjetiva do que é provável e do que não é provável entrou demasiadamente no estudo da Bíblia no passado.

Se alguém pressupõe que “os milagres não acontecem”, então a crítica histórica baseada nessa suposição rejeitará a veracidade de grande parte da narrativa neotestamentária. Se dados objetivos forem rejeitados em favor de juízos subjetivos no campo da crítica textual, como está sendo atualmente defendido em alguns círculos,[3] não haverá mais qualquer possibilidade de finalidade no testemunho dos manuscritos, sem mencionar qualquer finalidade na determinação de suas mensagens. É possível que regras rígidas e fixas nem sempre sejam aplicáveis aos problemas críticos; porém, deveríamos manter bem clara a distinção entre juízo particular alicerçado em pleno conhecimento e opinião particular que é formulada pelos gostos e experiências pessoais. As verdades espirituais só podem ser discernidas espiritualmente; e a tentativa de explicá-las baseando-se unicamente na razão é uma demonstração tanto de falta de erudição como de futilidade.

Leia também  Se Jesus é a Palavra de Deus, o que a Bíblia é? | Thiago Oliveira

Nunca devemos nos esquecer de que os documentos bíblicos com os quais os estudiosos lidam agora são, em si mesmos, fontes de informações de primeira mão. O tipo de crítica que os considera com suspeita somente pelo fato de serem documentos religiosos, cuja investigação é orientada pela busca de falhas e discrepâncias, não é científico porque é parcial. Esses documentos não foram escritos por falsificadores que puseram seus sentimentos no papel pelo puro prazer de iludir um público crédulo. Pelo contrário, foram escritos por homens que sacrificaram conforto, riquezas e reputação e arriscaram a própria vida por amor ao evangelho que defendiam. Mesmo não levando em conta a questão da inspiração, os autores da Bíblia deveriam ser creditados com pelo menos tanta sinceridade e exatidão como os demais autores da Antiguidade, cujas alegações de verdade não têm sido tão drasticamente analisadas.

Nenhum estudioso, é claro, pode afirmar ser completamente livre de parcialidade. Todo ser humano tem certas pressuposições de pensamento e se move em certos círculos da sociedade que afetam seus processos mentais de maneira consciente ou inconsciente. A imparcialidade absoluta é estranha para a natureza humana. Portanto, devemos estudar os livros bíblicos do ponto de vista evangélico, procurando evitar reivindicações extravagantes e deturpações injustas.


[1] Os teólogos liberais [Nota do editor].

[2] consiste em atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época

[3] “Nessa complexidade, o estudioso é orientado não por regras, mas por conhecimento e juízo. É guiado pelo seu conhecimento sobre escribas e manuscritos, sobre a história, as instituições e a teologia cristã, e sobre os livros cuja forma textual procura aperfeiçoar. É orientado pelo próprio juízo, uma qualidade por meio da qual a aplicação da razão ao conhecimento se transforma em uma arte” (E. C. Colwell, “Biblical criticism: lower and higher”, Journal of Biblical Literature LXVIII (1948): 5; grifos do autor).

 

Trecho extraído e adaptado da obra “Gálatas: a carta da liberdade  cristã“, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2024, p. 37-4O. Traduzido por João Bentes e Reuel Martinez. Publicado no site Cruciforme com permissão.

Merril C. Tenney (1904-1985) Ph.D. em grego bíblico e patrístico pela Universidade de Harvard. Exerceu brilhantemente o magistério em disciplinas como Novo Testamento, Grego e Teologia, atraindo estudiosos de todos os cantos do mundo. Foi por muitos anos deão do ensino superior e professor de Bíblia e Teologia no Wheaton College em Illinois, EUA. Entre seus muitos livros estão New Testament Survey, New Testament Times e O Novo Testamento sua origem e análise, publicado por Shedd Publicações.
Um comentário de um livro específico da Bíblia normalmente emprega um dos vários métodos possíveis de estudo. Mas neste envolvente estudo da Carta aos Gálatas, Merrill C. Tenney fornece ao leitor uma análise concisa e compreensiva ao dedicar para cada capítulo um dos dez métodos do estudo bíblico:

Sintético, crítico, biográfico, histórico, teológico, retórico, tópico, analítico, comparativo e devocional.

A inclusão desses métodos em um único volume torna este comentário um material rico e empolgante para o estudo de Gálatas, além de ser uma base para o estudo de outros livros da Bíblia.

Publicado por Vida Nova.

1 Comments

  1. Jessé Salvino Cardoso disse:

    Esse texto veio numa hora bendita, pois, cada leitor se orienta de acorodo com sua formação. A profundidade do twxto aqui referido vai além da leitura bíblica, isso cabe também num texto literário comum

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