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Expedição em busca da verdade – Parte 6

Esta é uma série intitulada “Expedição em busca da Verdade”, que tem por objetivo fornecer uma perspectiva racional e filosófica a respeito da existência de Deus e da veracidade do Cristianismo. Clique aqui para conferir todos os textos da série.

No artigo anterior, mencionei as diversas formas do saber e apresentei vantagens e problemas em cada uma delas. No entanto, creio que um dos métodos do saber exija um pouco mais de análise: a busca do saber pelos sentidos. Dentro deste método, encontramos o método científico, venerado muito, e com certa razão, nos nossos dias.

O que vem a ser o método científico? O método científico é um meio de saber através dos sentidos que padroniza um processo reproduzível a partir de experimentos. Ele começa com uma hipótese. A partir daí, experimentos são feitos para validar ou invalidar a hipótese. Se os experimentos apoiam a hipótese, esta é considerada verdadeira. No entanto, cabe dizer que esta determinação nunca é absoluta, pois ela evolui e pode haver variações e outras condições apresentadas que possam alterar a hipótese ou ajustá-la. Não é um destino final, mas sim uma jornada de conhecimento aberta a novas informações e experimentos.

O método científico é um excelente método de busca de conhecimento. Descobrimos curas para várias doenças, enviamos pessoas para a lua e descobrimos mais sobre nosso universo. Sem dúvida, muitos avanços em nosso conhecimento podem ser atribuídos ao método científico.

No entanto, em minha busca pela verdade, me deparei com algumas posições que afirmavam que o único método confiável de saber é o científico. Qualquer outro método, por não poder ser falsificável, não deve ser considerado válido para o saber. Pela prevalência deste posicionamento em nossa sociedade, acreditei ser necessário que minha expedição dedicasse uma atenção especial a isso.

Notei algumas coisas interessantes neste posicionamento: Ele requer que algumas premissas sejam estabelecidas para que o método científico seja usado. Notei que, devido ao fato de o método científico depender de experimentação reproduzível para validar ou não uma hipótese, este, por definição, está limitado a meios naturais. Desta forma, para se adotar a posição de que o método científico é a única maneira crível de se descobrir verdades, qualquer um que adota essa posição teria que adotar um desses dois posicionamentos:

Posicionamento 1: Estabelecer que a natureza é tudo que existe

Uma das formas seria presumir que tudo o que existe é natural e que fomos criados exclusivamente por meios naturais e nada mais. No entanto, notei uma coisa interessante: para adotar esse posicionamento, eu precisava aceitar essa posição como PREMISSA e não como CONCLUSÃO, pois eu não teria um meio de concluir isso pelo método científico. Teria que ser uma espécie de fé injetada a priori no processo. Eu começaria dizendo que não existe mais nada a não ser o natural, sem prova ou argumento, e então começaria o processo. No entanto, esse posicionamento me parecia tão radical quanto o posicionamento que muitos acusavam crentes fundamentalistas de ter, isto é, afirmar uma coisa de forma radical e construir um posicionamento em uma premissa simplesmente estabelecida de maneira a priori.

Posicionamento 2: Se existe algo além do natural, escolher ignorá-lo é não buscar outras ferramentas de busca

Outra forma seria menos radical. Alguém poderia simplesmente estabelecer a possibilidade de existência do sobrenatural, mas, devido ao fato de estabelecer que o método científico é o único que tem credibilidade, escolher ignorar e não buscar outros meios de saber que não dependeriam, por definição, do processo natural de análise. A opção seria dizer: “Eu tenho uma ferramenta científica de busca da verdade e vou usar essa ferramenta em todos os casos”.

Parecia-me uma opção de pessoas com mente um pouco mais “fechada” – coisa que, ironicamente, os crentes eram acusados de ser. Seria como estabelecer que o martelo é a única ferramenta a ser usada para qualquer obra e, quando sua função fosse limitada para fazer o reboco da casa, determinar que não vale a pena fazer reboco.

Eu preferiria adotar uma mente que eu considerava mais “aberta”, isto é, questionar as limitações de uma ferramenta e usar de todos os meus recursos como um humano racional na busca da verdade.

O meu segundo problema com essa posição é que ela não concluía que Deus não existe. Ela simplesmente decidia ignorar a possibilidade da existência de Deus por não poder ser testada cientificamente. Até aí eu concordava, pois o método científico tinha essa limitação. No entanto, por que então adotar o posicionamento padrão de que Deus não existe? Por que não adotar que um Ser Supremo existe? Nenhuma das duas opções poderia ser testada, de forma que voltaríamos na questão da fé injetada de modo a priori no processo.

Outra coisa que me incomodava era: por que não buscar outras ferramentas para ir além, em vez de simplesmente ficar com o martelo e decidir não rebocar a casa? Isso não fazia sentido para mim. O mais racional seria buscar outros meios, outras ferramentas que poderiam me ajudar onde o método científico estava limitado.  Além do mais, o método científico teria que afirmar, para ser coerente, que “Pelo método científico de hipótese e experimentos de validação, não há meios de provar ou descomprovar a existência de um Ser Supremo”. Assim, a conclusão racional não deveria ser “Então vou ignorar esta questão”. A coisa racional a ser feita seria buscar saber se existem outras ferramentas à minha disposição que poderiam me ajudar na minha expedição. Seria racional não fazer o reboco da casa ou analisar para ver se existem ferramentas melhores no mercado que me ajudariam a rebocar? Adotamos esse princípio em todas as outras situações da vida, por que não numa questão tão importante como essa?

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Outra curiosidade pairava sobre minha cabeça: A afirmação de que o método científico é a única forma crível de conhecimento. Será que essa afirmação era científica e passava pelo crivo da hipótese e teste experimental? Curiosamente, não. Meu cérebro “dava nó”, pois não havia forma de validar o método científico usando o próprio método científico! Que hipótese e testes eu faria que poderiam concluir que o método científico é o único meio de saber a verdade? Não teria como, de forma que tinha que aceitar isso à base da “fé” e não teste.

……………………..

Estava claro para mim que havia ainda mais limitações no método científico.

O método científico não pode determinar a moralidade

Por mais positivo que o método científico seja, não há como ele determinar o que DEVE ser. Este método é excelente para determinarmos o que acontece em nosso mundo natural. No entanto, não há como determinar o que DEVERIA acontecer. Não há como trazer nenhuma informação de moralidade, de certo ou errado. Ela é somente descritiva.

O método científico ainda está exposto ao preconceito humano

Embora em teoria o método científico busque uma metodologia que não seja contaminada pelo preconceito humano, esta ainda está exposta ao preconceito quando lida com suas conclusões. Tratarei deste assunto mais adiante, mas vi isso na ciência da macroevolução (evolução de uma espécie para outra, não adaptações na mesma espécie). Vi claramente o método científico sendo rigorosamente aplicado e provado na microevolução (adaptações dentro da mesma espécie). No entanto, até o momento deste artigo, não há nenhuma hipótese de macroevolução sendo validada pelo método científico, embora muitos pensem que sim. Embora ela tente eliminar o máximo de preconceito possível, ainda assim está exposta ao fator humano.

O método científico, se fosse a única forma, deixaria muito ladrão solto…

O método científico eleva o padrão de determinação de verdade em muitos casos para níveis não práticos. Se toda a determinação de culpa e de inocência fosse determinada pelo método científico somente, teríamos muitos bandidos soltos na rua. Se não consideramos outros meios de busca como, por exemplo, a análise da credibilidade de testemunhas, etc. podemos elevar o padrão a níveis não práticos em algumas áreas, como o processo criminal ou civil.

Sabemos que somos autoconscientes, no entanto, não pelo processo científico

Parecia-me que, em alguns casos, outros métodos de saber podiam também ser válidos onde o método científico se limitava. Vejamos a questão da autoconsciência. Cada um de nós tem a capacidade de olhar para nossos pensamentos como “terceira pessoa”. Estamos cientes da nossa consciência. Sabemos que pensamos. No entanto, não temos como provar isso via método científico. Temos como medir impulsos elétricos nas regiões cerebrais associadas com certos comportamentos. No entanto, não temos como dizer que esta pessoa está ciente de seus pensamentos a não ser que ela nos fale, que nos revele esta informação. Isso se torna um desafio ainda maior com novos desenvolvimentos da neurologia que mostram que o cérebro tem uma plasticidade que permite que outras áreas assumam funções de outras áreas não usadas ou danificadas.

Note que você sabe que é autoconsciente não pela ciência, mas simplesmente por intuição. É empírico você saber isso. No entanto, não há forma de você provar que você talvez seja o único ser autoconsciente e que todos os outros são androides de carne e osso programados para terem impulsos cerebrais similares, mas sem autoconsciência.

Em conclusão, continuei com uma admiração muito grande pelo método científico. Achava-o fascinante. Quantas descobertas, quantas melhorias houve em nossa sociedade devido à ciência. No entanto, não era racional de minha parte me limitar somente ao martelo. Eu queria rebocar a casa também.

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Fábio Mendes mora na Califórnia, EUA. É bacharel em Ciências da Computação pela Universidade Bethel, em Minnesota, e MBA em gerenciamento de tecnologia pela University of Phoenix. Atualmente, exerce a função de Arquiteto Sênior de Sistemas para uma seguradora internacional. Membro da igreja Christ Fellowship, em Miami, dedica-se ao pensamento e à filosofia cristã com ênfase para jovens.

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