Expedição em busca da verdade – Parte 9: Visitando a tribo da tolerância | Fábio Mendes

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Expedição em busca da verdade – Parte 9

Esta é uma série intitulada “Expedição em busca da Verdade”, que tem por objetivo fornecer uma perspectiva racional e filosófica a respeito da existência de Deus e da veracidade do Cristianismo. Clique aqui para conferir todos os textos da série.

Hoje em dia se discute muito a ideia de tolerância. Muitos são chamados de intolerantes por adotarem certas posições e crenças. No entanto, a minha expedição mostrou algumas curiosidades interessantes. O termo tolerância, assim como verdade absoluta abordada anteriormente, parece ser fortemente influenciado por uma cultura pós-modernista em que verdades nunca são absolutas. Resolvi lidar com o tema da tolerância fazendo um exercício mental que muitas vezes nos ajuda a manter uma coerência lógica. Resolvi imaginar a existência da “tribo da tolerância”. Seria possível existir essa tribo? Ela teria condições de ser racional e coerente? Vamos ver. Para isso precisamos imaginar diferentes características dessa tribo e ver aonde chegamos.

A primeira hipótese seria que essa tribo da tolerância é composta por nativos que possuem crenças diferentes, mas, de uma forma ou de outra, todos acreditam que a outra pessoa está certa “à sua maneira” e, desta forma, nunca entram em discussão. Se a pessoa A acredita que está certa a respeito do fato de estar chovendo ou não, esta simplesmente diz: “Está chovendo”. Se a pessoa B não acredita que está chovendo, esta simplesmente diz: “Não está chovendo”.

No entanto, se a pessoa B estivesse referindo-se à crença da pessoa A, eles diriam: “De acordo com a pessoa A está chovendo”. Mas o que aconteceria se perguntassem o seguinte à pessoa B: “Você acredita que a pessoa A está certa quando diz que está chovendo?”. A resposta seria “sim, de acordo com a pessoa A”. O que significa isso? Talvez possa significar, “sim, de acordo com a pessoa A, mas não de acordo comigo. E ambos estamos corretos”. Mas nós sabemos que isso não é possível, uma vez que a verdade é absoluta, de forma que não creio que isso seria uma boa análise do que seria a tolerância.

Se a tribo da tolerância não podia criar universos paralelos somente pelo fato de haver diferenças de crenças, então seria razoável assumir que esta tribo da tolerância teria que estabelecer o conceito de tolerância com o entendimento de que existem verdades absolutas, de forma que, se duas posições se contradissessem e não existisse uma terceira alternativa, somente uma das posições poderia estar correta, isto é, condizer com a realidade.

Outra possibilidade é que a tribo da tolerância seria composta por nativos que concordariam uns com os outros em tudo. Nunca haveria discordância. Existe um pequeno problema com essa tribo: por que chamá-la “tribo da tolerância” se não existe nada para tolerar? Essa tribo deveria ser chamada de “tribo da concordância”. Se todos concordam, então não significa que são tolerantes, mas simplesmente que CONCORDAM uns com os outros. Não há como haver tolerância se todos têm a mesma opinião.

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Vamos para outra hipótese então. Será que esta tribo discordaria uns com os outros, mas não seria permitido que dissessem que discordam? Talvez a afirmação “Eu discordo de você” ou “Eu creio que você está errado” seria ilegal nessa tribo. No entanto, isso criaria uma situação inconsistente. Será que a tribo consideraria aqueles que dizem “você está errado em discordar” ERRADOS? Será que os membros DISCORDARIAM daqueles que discordam dos outros? Note a incoerência. Esta tribo teria que ser INTOLERANTE ao estabelecer TOLERÂNCIA. Eles teriam que discordar dos que discordam, tornando-os culpados do mesmo problema que querem resolver. Desta forma, não vejo como esta tribo hipotética da tolerância poderia agir desta forma.

Sobra-me uma última hipótese de como seria esta tribo da tolerância: ela permitiria discordâncias e as pessoas estariam livres para pensar que a outra está errada. Esta tribo hipotética seria consistente com a posição de que a verdade é absoluta e aceitaria a realidade de que, se duas pessoas têm posições contraditórias onde uma terceira alternativa não existe, somente uma pode estar certa.  Então, a diferença não está na “crença” – afinal de contas, os membros da tribo podem discordar entre si. A diferença está no COMPORTAMENTO. Uma tribo da tolerância seria tolerante com as diferenças de opinião e concordaria que a verdade é absoluta. No entanto, esta tribo não apoiaria a violência, a intimidação ou a falta de respeito com as pessoas que eles creem estar erradas.

Minha descrição desta tribo hipotética de tolerância tem a intenção de mostrar que muitas vezes sacrificamos a lógica e um pensamento claro para sermos “politicamente corretos”. Tolerância, a meu ver, não tem nada a ver com crer que todos estão certos. Tolerância não se refere a verdades. Tolerância refere-se a atitudes. Creio ser aí a confusão que muitos fazem. Ser tolerante é não desrespeitar, é tratar de discordâncias civilizadamente, é permitir e aceitar que outros possam não só ter outra posição, mas estar errados. Nosso mundo pós-moderno foi muito além e começou a misturar a tolerância com uma negação de verdades absolutas. Eu creio que eles estão absolutamente errados nessa conclusão, mas tolero e respeito.

Clique aqui para conferir a Parte 10. Todos os textos aqui.

Fábio Mendes mora na Califórnia, EUA. É bacharel em Ciências da Computação pela Universidade Bethel, em Minnesota, e MBA em gerenciamento de tecnologia pela University of Phoenix. Atualmente, exerce a função de Arquiteto Sênior de Sistemas para uma seguradora internacional. Membro da igreja Christ Fellowship, em Miami, dedica-se ao pensamento e à filosofia cristã com ênfase para jovens.

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