Os três níveis da sabedoria | Samuel D. James

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11/maio/2026
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O que é sabedoria? Culturalmente falando, frequentemente chamamos de sabedoria a capacidade de tomar decisões corretas. Muitas vezes, a sabedoria e “obter a resposta certa” são tratados como sinônimos; assim, temos a noção da “sabedoria do povo” ou do também chamado senso comum, uma ideia que diz que há maior probabilidade de se chegar à resposta certa quanto mais pessoas forem entrevistadas. Também associamos a sabedoria à experiência dos anos de uma pessoa, ao falar de pessoas que viram ou fizeram muitas coisas “sábias” e aconselharam os jovens a “serem sábios”, isto é, a deixarem de ser ingênuos ou sem objetivos. Em todo caso, a ideia de sabedoria é com frequência um conceito relativo. Ela mede a aptidão que tem uma pessoa para lidar com uma tarefa ou um problema particular.

Quando a Bíblia fala de sabedoria, ela o faz de uma forma um pouquinho diferente. A sabedoria cristã é holística. Ela não se reduz aos experts de livros ou das ruas, nem é apenas a soma total das lições que aprendemos. Ao contrário, a sabedoria cristã diz respeito a viver uma vida que responda corretamente à realidade. Em seu livro The fear of the Lord is wisdom, o teólogo Tremper Longman III descreve a sabedoria bíblica como uma ideia que contém três níveis essenciais: as aptidões para viver (prática), tornar-se uma boa pessoa (ética) e temer a Deus (teológica).[1] Todas as três formas de viver são sábias não somente porque são ordenadas por um Criador confiável; elas são sábias porque são responsivas às realidades objetivas no mundo.

 

As aptidões para viver

A sabedoria prática é a arte de ser capaz de discernir o que realmente está acontecendo em um contexto relacional, vocacional e pessoal. No livro de Provérbios em particular (que, junto com Jó e Eclesiastes, formam uma parte das Escrituras cristãs conheci- das como “literatura de sabedoria”), uma pessoa verdadeiramente sábia é alguém que pode discernir o curso correto da ação em uma situação tensa ou confusa. Longman descreve essa sabedoria como “similar ao que hoje nós muitas vezes chamamos de inteligência emocional. Pessoas emocionalmente inteligentes, como o sábio no livro de Provérbios, sabem como dizer a coisa certa na hora certa. Elas fazem a coisa certa na hora certa”.[2] Em outras palavras, enquanto outros interpretam mal a realidade e fazem ou dizem algo inadequado para o momento, a pessoa sábia consegue “medir o clima” das situações, olhando além da aparência superficial e vendo as pessoas e os problemas como eles realmente são.

A sabedoria requer mais do que ditados e chavões memorizados. Ela exige um conhecimento vivo a respeito de como as pessoas e o mundo realmente são. Alguém munido apenas com um conhecimento da natureza humana baseado em frases de efeito oferecerá a um amigo conselhos que sairão pela culatra de forma vergonhosa, pois esse tipo de conselho não está na verdade enraizado em uma consciência da realidade objetiva. Pessoas que estão escravizadas por seus impulsos tomarão decisões que as colo- carão em situações muito problemáticas porque suas emoções as tornam desconhecedoras dos fatos da situação. Ser sábio é viver a vida diária à luz da realidade.

Entretanto, esse tipo de sabedoria não para na esfera emocional. Viver à luz da realidade tem uma dimensão moral, o que Longman chama de “nível ético” da sabedoria. Se realmente existem o certo e o errado e se padrões morais objetivos são reais em nosso universo, então uma pessoa sábia também deve viver à luz da verdade. O desejo de ter sucesso na vida não é suficiente. Precisamos ser moldados à luz da realidade da virtude.[3]

 

Os padrões morais

Não faz tanto tempo que muitos na sociedade ocidental acreditavam que qualquer conversa sobre “moralidade objetiva” era, na melhor das hipóteses, equivocada e, na pior, despótica. Supostamente, a filosofia do pós-modernismo deveria aniquilar qualquer apelo aos padrões éticos universais. “O que é verdade para você o é para você, e o que é verdade para mim, o é para mim”. Mas o relativismo moral tem passado por tempos difíceis, até mesmo — mais particularmente, inclusive — entre aqueles que rejeitam o cristianismo. Mesmo os relativistas mais radicais concordarão hoje sem pestanejar que injustiça social é algo errado em todos os casos, ou que a violência e o preconceito contra mulheres ou pessoas LGBTQ+ não devem ser tolerados em uma sociedade justa. O Ocidente contemporâneo redescobriu o que a Bíblia nunca esqueceu: padrões objetivos de certo e errado são intrínsecos ao tecido de nossa existência. Não podemos ser completamente humanos sem eles.

 

O temor do Senhor

O terceiro nível de sabedoria de acordo com Longman é teológico. Podemos resumir o nível teológico da sabedoria da maneira precisa utilizando a definição do livro de Provérbios: “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina” (Pv 1.7). Mesmo depois de tentarmos discernir o caminho objetivamente verdadeiro que nos leva adiante na vida e o padrão virtuoso ao qual precisamos nos conformar, ainda resta o aspecto mais fundamental da sabedoria. A sabedoria teme ao Senhor. A sabedoria holística olha para a realidade e vê seu autor, majestoso, soberano e digno de lealdade. Como escreve Longman, “o ‘temor’ em ‘temor do Senhor’ é a sensação de estar diante do Deus que tudo criou, incluindo os humanos, de quem a existência contínua depende. A emoção é adequada para a sabedoria porque ela demonstra o reconheci- mento de que Deus é muito maior do que nós”.[4] Nesse sentido, o parâmetro da verdadeira sabedoria é a capacidade de ver Deus por quem ele é, e, ao vê-lo, responder da única forma adequada. Deus não é uma ideia. Ele não é uma tese filosófica a ser contemplada de maneira meramente teórica. Deus está em todos os lugares. Ele é onipresente, onisciente e onipotente. Ele é o único Criador e sustentador de toda a criação. Ele é o soberano supremo sobre absolutamente tudo em nosso universo e em qualquer outro. Como diz de maneira elegante o título de um livro famoso, Ele está presente e não está em silêncio.[5]

 

Conclusão

A essência da verdadeira sabedoria, portanto, é viver completamente alinhado à realidade última: prática, ética e teológica. À medida em que alguém for sábio, essa pessoa verá a si mesma, ao mundo ao seu redor e a Deus pelo que eles são de verdade. Como me lembro de um pregador dizendo, uma vida sábia é vivida junto com a realidade que Deus criou, e não contra ela.

 


Notas

[1] Tremper Longman III, The fear of the Lord is wisdom: a theological introduction to wisdom in Israel (Grand Rapids: Baker, 2017), p. 6-25 [publicado em português por Editora Peregrino sob o título O temor do Senhor é sabedoria: uma introdução teológica à sabedoria em Israel].

[2] Ibidem, p. 7.

[3] Ibidem, p. 11. Logman cita a obra do acadêmico bíblico S. M. Lyu, Righteousness in the book of Proverbs, em que Lyu escreve: “Provérbios ensina que o leitor deve aprender e se tornar sábio e justo. Para atingir esse objetivo, espera-se que o aprendiz passe por um remodelamento de sua pessoa interna. Seus desejos, esperanças e disposição devem ser recondicionados de modo a refletir o ideal”.

[4] Ibidem, p. 12.

[5] Francis A. Schaeffer , He is there and he is not silent (Carol Stream: Tyn- dale, 1972) [publicado em português por Cultura Cristã sob o título O Deus que se revela].


Trecho extraído da obra “Liturgias digitais“, de Samuel D. James, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2026, p.38-42. Publicado no site Cruciforme com permissão. 38-42

Foto de Simon Wilkes na Unsplash

É editor associado de aquisições na Crossway e autor de Digital Liturgies, uma newsletter sobre cristianismo, tecnologia e cultura. Mora em Louisville, Kentucky, com sua esposa, Emily, e seus três filhos.
Por trás da conveniência digital e das redes sociais, o ambiente online atua como um verdadeiro formador silencioso, moldando a maneira como pensamos, desejamos e enxergamos o mundo. Fomos criados para buscar sentido, verdade e algo maior do que nós mesmos; porém, ao tentarmos saciar essa fome nas redes sociais, o resultado é quase sempre a exaustão e a anestesia espiritual. Em Liturgias digitais, Samuel D. James une apologética cultural e cosmovisão cristã para mostrar que a web funciona como um poderoso ambiente litúrgico. O autor expõe cinco dessas liturgias diárias — hábitos que moldam nossos desejos e nos treinam para fugir do desconforto, ignorar grandes verdades e esquecer Deus como nosso Criador. Longe de ser apenas uma crítica aos perigos das telas, esta obra propõe um caminho de formação espiritual. Não se trata de um isolamento ingênuo da tecnologia, mas de uma resistência intencional: cultivar hábitos reais que reorientem nossos afetos para Cristo. Uma leitura necessária para cristãos que buscam ancorar a fé e viver com sabedoria em um mundo cada vez mais hiperconectado.

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