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Triângulo de Penrose

Diferentes perspectivas, embora tenham seu ponto de partida em ênfases distintas da revelação bíblica, são, em princípio, harmonizáveis. Nós, seres humanos, nem sempre percebemos essa harmonia de imediato. Contudo, temos novas percepções no processo de tentar ver o mesmo material de várias perspectivas. Usamos o que descobrimos em uma perspectiva para reforçar, corrigir ou melhorar o que entendemos por meio de outra. Chamo esse procedimento de teologia sinfônica, porque é análogo à combinação de vários instrumentos musicais para expressar as variações de um tema sinfônico.

Agora, porém temos de lidar com algumas questões preocupantes. Pessoas não habituadas a pensar de acordo com as perspectivas podem preocupar-se com a possibilidade do relativismo. Se, em tese, todas as perspectivas são válidas, a verdade não seria relativa à perspectiva de alguém? Ao colocar todas as perspectivas em fluxo, não destruímos a ideia de verdade absoluta? Em nosso contexto atual, o relativismo, de uma forma ou de outra, está bastante difundido e popular. Portanto, é importante delinear as diferenças entre a teologia sinfônica e o relativismo destrutivo.

A verdade é relativa ou absoluta? Estou convencido de que a verdade é absoluta.  No entanto, temos de formular cuidadosamente as implicações de sua natureza absoluta. Estamos interessados na verdade proposicional, ou seja, verdades expressas por meio de afirmações declarativas. Uma asserção declarativa pode assumir a forma de uma afirmação para todos os tempos e lugares; ou pode se uma afirmação para um tempo e lugar específicos. Por exemplo, a afirmação “vermelho e verde são cores distintas” é uma verdade geral, ao passo que “Sócrates morreu porque tomou veneno” é uma verdade sobre um acontecimento singular em tempo e lugar específicos. Contudo, em ambos os casos, pode-se comprovar a verdade das duas afirmações em qualquer época e lugar.[1]

Qualquer verdade, portanto, é universal e absoluta no sentido de que é verdade para toda pessoa que a investigar. Essas afirmações sobre a verdade, porém, não são de fato muito profundas, pois apenas refletem a maneira pela qual geralmente usamos as palavras “verdadeiro” e “verdade”. Quem utiliza essas palavras com outras implicações em mente provavelmente não será compreendido. (Com frequência, esses indivíduos querem declarar, principalmente, que não acreditam na existência de verdade alguma, ao menos no sentido comum. Contudo, adotar essa posição não muda o significado da palavra “verdadeiro”.)

Às vezes, é claro, como seres finitos, discordamos de opiniões passadas. Podemos mudar de opinião a respeito de algo que antes acreditávamos ser verdade. Nesses casos, porém, a palavra “verdadeiro” é usada, em geral, de um modo que as mudanças na opinião das pessoas são descritas como mudanças de crenças, não alterações da verdade em si. Essa análise tem um princípio simples: podemos continuar pensando da maneira que a maioria de nós pensou até então. O que é verdadeiro é verdadeiro, não importa o que nós, seres humanos, achamos ser verdadeiro.

O uso de múltiplas perspectivas não constitui uma negação do caráter absoluto da verdade. Ao contrário, trata-se do reconhecimento da riqueza da verdade e se baseia no fato de que o ser humano é limitado. Nosso conhecimento da verdade é parcial. Conhecemos a verdade, mas não toda a verdade. Há pessoas que conhecem verdades que desconhecemos. Somos capazes de aprender o que outros sabem, em parte, ao ver as coisas da perspectiva delas. Vamos usar novamente a analogia da joia. Ela tem muitas facetas, cada uma análoga a uma perspectiva. Todas as facetas estão presentes de modo objetivo, assim como a joia em sua totalidade. Entretanto, nem todas as facetas podem ser igualmente bem visualizadas por meio de uma delas apenas. Da mesma forma, nem todos os aspectos da verdade podem ser bem vistos apenas de uma única perspectiva.

Portanto, podemos dizer que, embora a verdade seja absoluta, o conhecimento dela por um ser humano é relativo em certos aspectos. Em primeiro lugar, o conhecimento da verdade não é o conhecimento exaustivo de toda a verdade. O conhecimento humano é relativo em conteúdo. Nossas oportunidades na vida, nossa capacidade intelectual, nossos interesses, nossos professores e nossos pressupostos influenciam as verdades particulares sobre as quais adquirimos conhecimento. As facetas específicas que vemos em uma joia depende da perspectiva que a observamos. Todo fragmento específico de verdade está sempre relacionado a outros fragmentos. As relações exatas que vemos e usamos dependem de nós. Em segundo lugar, há um sentido em que o conhecimento humano também é relativo quanto ao uso. O teste decisivo do conhecimento de certas pessoas depende de elas saberem usá-lo, ou não, em situações relevantes. A pessoa que afirma conhecer algo, mas é incapaz de aplicar uma percepção pode muito bem conhecer as palavras sem tê-las realmente entendido. O conhecimento, portanto, é sempre conhecimento em relação a outras verdades e situações de uso possíveis. Por fim, o conhecimento humano é relativo quanto ao tempo. Cada pessoa pode crescer em conhecimento da verdade, esquecer-se dela ou deixar de acreditar nela.

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Ao menos entre os teístas, suponho que ninguém negaria que o conhecimento humano é relativo nesses aspectos. (Há quem prefira, talvez, não usar o termo “relativo” com receio de comprometer sua convicção de que a verdade não é relativa. Contudo, creio que a maioria concordaria com a essência desta seção.) Todavia, não acredito que tenhamos sempre avaliado as consequências da relatividade de nosso conhecimento. Sabemos que a verdade é absoluta – sobretudo, as verdades da Bíblia. Entretanto, caímos em excessiva arrogância quanto ao nosso conhecimento humano. Não admitimos o fato  de que nossa interpretação da Bíblia é falível. Ou então, se conhecemos uma parte da verdade, supomos, de modo equivocado, que a conhecemos com precisão e de forma plena. Os fariseus, sem dúvida, achavam que tinham entendido, com exatidão, o mandamento do sábado. Portanto, sabiam que Jesus estava violando esse preceito. Estipulavam com precisão seus limites. Sabiam, por exemplo, até que distância exata poderiam viajar no sábado sem “realizar uma jornada” (i.e., sem trabalhar). Contudo, tornaram-se excessivamente confiantes e presunçosos nesse assunto; mas, na verdade, não haviam entendido o Antigo Testamento.

Vamos, porém, aplicar esse estudo a nós. Podemos supor, de maneira equivocada, que, em nosso conhecimento, não precisamos realmente de um conjunto antecedente de outras verdades relacionadas para compreender certo ensinamento. Tornamos uma verdade a base de uma longa série de silogismos sem levar em conta seu contexto. Ignoramos, por exemplo, o contexto em que as leis do sábado foram dadas. Nesse ponto, parece-me que o caráter absoluto da verdade foi confundido com a ideia questionável de que podemos isolar e dissecar uma parte da verdade. Assim como nesse exemplo, nenhuma afirmação verdadeira é autoexistente.

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[1] Veja a análise mais elaborada a respeito desse assunto em Paul Helm, “Revealed propositions and timeless truths”, Religious Studies 8 (1972): 127-36.

Trecho extraído da obra “Teologia sinfônica: A validade das múltiplas perspectivas em teologia“, de Vern S. Poythress, publicado por Editora Vida Nova: São Paulo, 2016, p. 51, 53-56. Traduzido por A. G. Mendes. Publicado com permissão.

Vern Poythress é professor de Interpretação do Novo Testamento no Westminster Theological Seminary. É também editor do Westminster Theological Journal. Seus amplos interesses permitem-lhe escrever com profundidade teológica em diversas áreas como linguística, matemática, ciência e sociologia. Poythress juntou-se à Westminster faculty em 1976 e também serviu como instrutor no Summer Institute of Linguistics.
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A Bíblia apresenta a revelação em um conjunto coeso e coerente, mas ela chegou até nós por uma variedade de autores inspirados, com diferentes metáforas e temas que ressaltam as diversas facetas da verdade de Deus. Do mesmo modo, nossas formulações teológicas captam várias ênfases — diferentes “perspectivas” do todo — que nos capacitam, de forma coletiva, a alcançar um entendimento pleno da verdade.

Ao defender a validade de múltiplas perspectivas, Vern Poythress apresenta a seguinte explicação: “Usamos o que descobrimos em uma perspectiva para reforçar, corrigir ou melhorar o que entendemos por meio de outra. Chamo esse procedimento teologia sinfônica, porque é análogo à combinação de vários instrumentos musicais para expressar as variações de um tema sinfônico”. Essa abordagem tem profundas implicações para a teologia e a práxis.

Publicado por Editora Vida Nova.

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