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Vemos a sabedoria de Deus na composição das Escrituras do Antigo Testamento, isto é, nos vários componentes do todo. Vamos examinar esses componentes e a necessidade de cada um.

Era necessário, por exemplo, que tivéssemos um relato da criação do mundo, dos nossos primeiros pais e seu estado primitivo; da queda do homem, do mundo antigo e sua decadência; do dilúvio universal e da origem das nações depois da destruição da humanidade.

Faz-se necessário, também, que tenhamos um relato da sucessão da igreja[1] de Deus desde o começo. Deus permitiu que o mundo se degenerasse, e escolheu uma nação para ser seu povo e para preservar a verdadeira adoração e religião até que o Salvador do mundo viesse. Por meio dessa nação o mundo foi preparado gradualmente para aquela grande luz e para coisas maravilhosas vindas da mão de Deus. Israel era uma nação típica para que Deus pudesse revelar e ensinar, como se enxergássemos através de um véu todas as glórias futuras do evangelho. Portanto, era necessário que tivéssemos um relato de tudo isso: como tudo começou com o chamado de Abraão, como seus descendentes foram escravizados no Egito e como conseguiram chegar a Canaã. Era necessário que tivéssemos a história da revelação de Deus àquele povo, como Deus lhes deu a lei e as instruções para o culto regular, dentro do qual o evangelho é velado; e a história da formação do governo civil e eclesiástico de Israel.

É também muito necessário que tenhamos um relato de como o povo de Deus chegou a Canaã, a terra que lhe foi prometida e onde Israel sempre habitou. Também precisamos da história do desenvolvimento da igreja de Israel e de todas as providências com as quais foram abençoados, tão significativas e cheias do mistério do evangelho. Precisamos de um relato da glória externa prometida à nação sob a liderança de Davi e Salomão; e de uma história detalhada de Davi, uma história tão carregada do evangelho. Precisamos de um relato da sequência de reis em Israel e Judá, para que tivéssemos uma descrição da construção do Templo, no qual reside tanto mistério do evangelho.

É também muito importante que tenhamos a história da divisão de Israel e Judá, do cativeiro das dez tribos do norte e, enfim, sua rejeição total. Como também é necessário um relato dos reis de Judá e da igreja até o cativeiro na Babilônia; de seu retorno do cativeiro e seu reassentamento em sua própria terra, o início da última fase da igreja antes da vinda de Cristo.

Um pouco de reflexão convencerá qualquer pessoa de que todas essas coisas foram necessárias, e que nenhuma delas podia faltar. Em geral, foi necessário que tivéssemos uma história da igreja de Deus até os tempos em que histórias humanas pudessem preencher as lacunas. Era importante que tivéssemos uma história inspirada da época em que havia um diálogo extraordinário entre Deus e seu povo, quando Deus habitava visivelmente entre eles e se revelava por meio da Shekhinah, do Urim e Tumim e da profecia para que Deus pudesse orientar seus assuntos em comunidade. Era necessário, ao final da história inspirada, que tivéssemos um relato das grandes dispensações de Deus pela profecia: vários profetas levantados como arautos, preparando o caminho para o Filho de Deus, que pudessem prever a sua vinda e a natureza e glória de seu reino.

Era também muito importante que a igreja tivesse um livro de cânticos divinos, inspirados por Deus — cânticos que fossem um canal vivo do verdadeiro espírito de devoção, fé, esperança, amor divino, alegria, submissão, humildade, obediência e arrependimento, como no Livro de Salmos. Precisamos também livros de instrução moral, vindos de Deus, como Provérbios e Eclesiastes, que tratam da vida humana em sociedade, com regras para a verdadeira sabedoria e prudência em nossa conduta em todas as circunstâncias. Precisamos ainda de um cântico que represente o grande amor entre Cristo e sua esposa, a igreja, como Cântico dos Cânticos — um livro que também se adapte às santas afeições da alma cristã genuína para Cristo, e que retrate sua graça, seu deleite e seu maravilhoso amor por seu povo.

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Como também é fundamental que tivéssemos um livro que nos ensine como viver debaixo da aflição, pois a igreja de Deus está numa posição militante, e o povo de Deus entra no reino do céu através de muita tribulação. De fato, por muito tempo a igreja tem passado por aflições, provações difíceis e sofrimentos extremos, antes que alcançasse seu tempo de paz e descanso nos últimos dias do mundo. É por essa razão que Deus nos deu um livro apropriado para essas circunstâncias: o livro de Jó. Embora Jó tratasse das aflições de um santo em particular, provavelmente foi entregue à igreja no Egito durante suas tribulações naquele lugar. O apóstolo utiliza o livro de Jó para confortar cristãos que sofrem perseguições: “Ouvistes sobre a paciência de Jó e vistes o fim que o Senhor lhe deu. Porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão” (Tiago 5.11). No livro de Jó, Deus queria nos dar uma perspectiva da divindade antiga antes que a lei fosse outorgada a Israel.

À luz desse resumo, vemos que todas as partes das Escrituras do Antigo Testamento são úteis e necessárias e nenhuma delas pode ser descartada sem prejuízo à igreja. Portanto, a sabedoria de Deus é evidente no fato dele incorporar às Escrituras do Antigo Testamento exatamente aqueles livros que fazem parte dessa coleção.


[1] É importante elucidar o que Edwards entendia por igreja, pois, conforme veremos no decorrer do texto, ele via a igreja de forma mais ampla considerando inclusive o povo do Antigo Testamento como igreja: “A igreja de Deus desde o início tem sido uma única sociedade” (EDWARDS apud MCDERMOTT; MCCLYMOND 2023, p. 230). Sobre esse entendimento do teólogo americano, McClymond e McDermott afirmaram que: “Edwards usa ‘igreja’ indiscriminadamente para se referir aos israelitas antes da vinda de Jesus e aos cristãos posteriormente. Ou seja, essa terminologia reflete a crença de Edwards na unidade fundamental do povo de Deus no espaço e no tempo” in: MCDERMOTT, Gerald R.; MCCLYMOND, Michael J. Teologia de Jonathan Edwards. São Paulo, 2023, p. 230 [Nota do editor].

Jonathan Edwards (1703-1758) foi filósofo e também considerado um dos mais destacados teólogos americanos. Ele se formou em Yale com apenas dezessete anos. Seu brilhantismo acadêmico sempre esteve aliado à prática ministerial, uma combinação que lhe permitiu destaque como pastor, pregador e um dos líderes do Primeiro Grande Despertamento nos Estados Unidos. Edwards também foi um dos principais estudiosos dos fenômenos de avivamento e escreveu vários livros e sermões sobre o amor e a bondade de Deus, alguns deles lançados no Brasil, como "A surpreendente obra de Deus na conversão de muitas centenas de almas" (Shedd), "Afeições religiosas", "A liberdade da vontade", "Pecado original" e "A verdadeira obra do Espírito: sinais de autenticidade" (Vida Nova). "Seu sermão de 1741", "Pecadores nas mãos de um Deus irado", permanece até hoje como um clássico da literatura cristã.
Neste livro Jonathan Edwards traça a obra da redenção de Deus desde o início até o fim da história.

Edwards considerava esta obra o ápice de todo o seu trabalho ao longo da vida. Seu objetivo foi escrever uma teologia sistemática usando um “método inteiramente novo”. Esse novo método acabou contribuindo para o que talvez seja o primeiro tratado de teologia bíblica na história da igreja cristã. Ele desejava que todos soubessem que a Bíblia tem uma mensagem e um propósito — revelar à humanidade o único plano de redenção que se desdobrou nas Escrituras, desde a primeira até a última página da Bíblia. Esse plano especial tem em vista uma pessoa, Jesus Cristo. Para Edwards, tudo na história do mundo foi planejado à luz “do grande trabalho de redenção por Jesus Cristo... o grande projeto de todos os desígnios de Deus”.

Publicado por Vida Nova.

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