A reforma protestante e o contexto brasileiro | Franklin Ferreira

A família como a expressão visível da reconciliação | Diego dy Carlos
26/out/2026
A família como a expressão visível da reconciliação | Diego dy Carlos
26/out/2026

Vivemos uma época em que os debates teológicos ocorrem com frequência cada vez maior e de modo bastante acirrado. Os tempos modernos e a natureza das discussões sobre o tema parecem ilustrar bem o alerta clarividente de Grant R. Osborne:

Não sabemos ao certo como determinar um dogma, especialmente como obtê-lo a partir das Escrituras; e não sabemos como distinguir doutrinas centrais daquelas doutrinas sobre as quais devemos concordar em discordar. Existem mais caçadores de heresias por aí do que jamais existiu na história recente, e ainda assim existe menos consciência teológica na maioria das igrejas do que em qualquer outro período do último século. É uma dicotomia estranha — temos mais material sobre a Bíblia e a teologia do que nunca, mais interesse em estudos bíblicos, e ainda assim temos menos conhecimento da Bíblia e de teologia.[1]

Um dos fatores que caracterizam esses debates é a falta de referência à Escritura. Isso é algo que, de fato, me espanta. Alguns escritores propõem revisões radicais do ensino cristão, mas na maioria das vezes em ruptura com a tradição cristã acerca da doutrina de Deus e da salvação e sem demonstrar a menor preocupação em remeter seus leitores (ou, pelo menos, seus seguidores mais fiéis) às páginas da Escritura — a qual era reconhecida até bem pouco tempo atrás como a incondicional Palavra de Deus pelos que se identificam como cristãos. Mesmo os debates mais básicos, como os que tratam de aspectos da ética cristã, são pautados não mais pela Escritura, mas pela mera opinião pessoal. Seguem irrestritamente a opinião de um líder religioso ou alguma ideologia política.

De modo muito sutil, dissemina-se a ideia de que a Bíblia pode até ser um livro importante, uma coletânea de bons conselhos ou mesmo uma publicação que contenha uma mensagem vagamente piedosa em meio a histórias de guerras, traições e matanças, sem ser necessariamente fundamental para a fé cristã. De modo insidioso, as pessoas são levadas a crer que, por meio de nossa razão ou intuição, é possível alcançar e descobrir a Deus acima e além da Escritura.

Isso não é novo. Trata-se do mesmo esforço religioso e idolátrico presente na construção da Torre de Babel (cf. Gn 11.1-9). E o relato bíblico é claro: Deus despreza a ação religiosa, subvertendo-a e repelindo-a, uma vez que ela é somente isto: esforço e idolatria. Mas, para os cristãos, quando as Escrituras falam, é Deus mesmo quem fala, e fala a nós. Deus dixit! Dominus dixit! [Deus disse! O Senhor disse!]. E nas Escrituras aprendemos que, do começo ao fim, é o Senhor Deus todo-poderoso quem busca os seus, por pura misericórdia, em Cristo Jesus.

Até meados do século passado, os evangélicos inseridos na tradição fundamentalista usavam a Escritura como texto-prova (dicta probantia).[2] Até podiam praticar uma hermenêutica literalista ou ingênua, mas havia preocupação genuína em citar o texto bíblico, em remeter seus ensinos à Escritura. Hoje, nem isso. De um lado, a invasão dos métodos críticos na interpretação da Escritura supostamente tornou sem razão afirmar algo a partir dela, já que, para muitos dos que seguem tais metodologias, a Bíblia não é inspirada, e sim mero produto humano. De outro lado, as supostas novas revelações entregues, sobretudo, a bispos e apóstolos neopentecostais fizeram da Escritura nada mais que um simples acessório em suas comunidades. Com isso, no âmbito de certas igrejas, basta unir alguns chavões piedosos à linguagem religiosa e qualquer ideia passará facilmente por “cristã”. E os fiéis a seguem, sem nem mesmo se preocuparem em examinar as Escrituras todos os dias “para ver se as coisas eram de fato assim” (At 17.11). A nobreza se perdeu. Por isso, o que se vê hoje é o ressurgimento do velho gnosticismo, mais uma vez tentando se parecer com o cristianismo. Todavia, não é demais lembrar, gnosticismo não é cristianismo.[3]

À medida que importantes segmentos da igreja brasileira tentam loucamente pôr de lado o “bem-aventurado e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o que possui, ele somente, a imortalidade e habita em luz inacessível” (1Tm 6.15,16), uma nova casta sacerdotal vai surgindo com seus líderes endinheirados. Com eles, aparecem certos eruditos que não raro precisam apelar à falácia do argumento magister dixit[4] enquanto se agarraram às teorias críticas do século 19 como se fossem a última moda teológica — todos igualmente caricatos e bufões. E presenciamos o absurdo em que abandonar a Escritura, desprezar a igreja e transformar Jesus num curandeiro, mestre inofensivo ou libertador social é ser de vanguarda. Como se isso não bastasse, qualquer crítica feita a essa nova classe sacerdotal, grandemente responsável por tal doença, equivale a blasfêmia e atrai a ira e a revolta de seus seguidores cegos, que se juntam em correntes de ódio.

E assim novas ideias tentam tomar o lugar da reta doutrina, do puro evangelho — pode ser o pelagianismo,[5] a mensagem da prosperidade[6], o teísmo aberto ou o marxismo cultural, que tomou de assalto todas as esferas da sociedade e anseia por inaugurar um suposto milênio na terra, a utopia totalitária do “outro mundo possível”. Tristemente, alguns cometem a alucinada infâmia de tentar mesclar a absoluta Palavra de Deus em Jesus Cristo com uma ideologia corrupta e corruptora, um sistema de ideias que está entre os mais assassinos da história.

Em sua loucura, todos esses conceitos pervertem a mensagem cristã. Os adeptos de cada uma dessas correntes seguem não mais o evangelho, antes correm atrás de outro tipo de anúncio (ἕτερον εὐαγγέλιον), mera perversão ou caricatura, não mais a boa-nova da salvação de Deus em Cristo, que justifica, redime, reconcilia e adota ímpios somente pela fé, regenerando-os por meio da obra do Espírito Santo: “O evangelho de Deus a respeito de seu Filho que se fez carne, sofreu, ressuscitou e foi glorificado pelo Espírito santificador”[7]. A mensagem para os que abandonaram a pura Palavra de Deus e para aqueles que os seguem é: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue um evangelho diferente do que já vos pregamos, seja maldito. Conforme disse antes, digo outra vez agora: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que já recebestes, seja maldito” (Gl 1.8,9)[8].

Lamentavelmente, o veredicto de Dietrich Bonhoeffer sobre o cristianismo nos Estados Unidos do fim da década de 1930 descreve com exatidão os evangélicos no Brasil do século 21:

Deus não concedeu ao cristianismo americano nenhuma reforma. Ele lhe concedeu vigorosos pregadores reavivalistas, pastores e teólogos, mas nenhuma reforma da igreja de Jesus Cristo por meio da Palavra de Deus. Qualquer coisa das igrejas da Reforma que chegou à América é ou está em exclusão consciente e afastada da vida geral da igreja ou foi vítima do protestantismo sem Reforma. […] A teologia americana e a igreja americana como um todo nunca foram capazes de compreender o significado da “censura” pela Palavra de Deus e tudo o que isso significa. Do primeiro ao último, eles não entendem que a “censura” de Deus toca até mesmo a religião, o cristianismo da igreja e a santificação dos cristãos, bem como que Deus fundou sua igreja para além da religião e para além da moralidade. Um sintoma disso é a adesão geral à teologia natural. Na teologia americana, o cristianismo ainda é essencialmente religião e moralidade. Por causa disso, a pessoa e a obra de Cristo, na teologia, vão permanecer em segundo plano e, por longo tempo, ficar incompreendidas, porque não são reconhecidas como o único fundamento do julgamento e do perdão radical. A principal tarefa na atualidade é o diálogo entre o protestantismo sem Reforma e as igrejas da Reforma.[9]

“A crítica desse mártir sobre o cristianismo nos Estados Unidos está correta em sua essência e se aplica por inteiro a nós hoje, em nosso país. Em resumo, para grande parte dos evangélicos brasileiros, o cristianismo é basicamente sobre o que se faz para Deus. E é justo nesse ponto que rompemos de vez com a fé bíblica redescoberta na Reforma. Pois ela enfatiza e ensina somente o que Deus faz por nós por meio do Cristo crucificado, ao dar prioridade à graça livre e soberana que age em meio ao nosso pecado, vício e escravidão existencial, nos redime e faz de nós novas criaturas. Como Lutero afirmou:

“Por isso, alguém não é chamado de cristão por fazer muito; mas por tomar, buscar, deixar-se presentear por Cristo. Quando alguém não toma mais de Cristo, não é cristão. O nome “cristão” fica no tomar e receber, não no fazer, porque não recebe nada de ninguém, exceto de Cristo. Se ele olha para o que faz, então já perdeu o nome cristão. É verdade que devemos fazer boas obras, ajudar o próximo, aconselhar e dar; mas por isso ninguém se torna um cristão. Assim, se quisermos reconhecer se alguém é um cristão, conforme a palavra de Deus, temos de perguntar como ele está em relação a Cristo, se ele se apega somente à graça de Cristo… Por minhas obras, o jejuar, penso que posso ser chamado de jejuador; por minhas peregrinações, um peregrino, mas não de cristão.[10]

Portanto, de acordo com o ensino confessado pelos reformadores, “o que torna alguém um cristão não é fazer certas obras, mas a fé, a confiança na justificação por Deus, pela graça de Cristo”.[11] Por isso, é mais que recomendável que escutemos as palavras de Scott Mantesch dirigidas à igreja evangélica nos Estados Unidos, mas que bem se aplicam aos evangélicos brasileiros:

Agora, mais do que nunca, ​os protestantes evangélicos da América do Norte ​precisam urgentemente ​ “protest​ar” contra a superficialidade teológica, ​desvencilhar-se dos modismos culturais e ​de uma visão míope focada ​apenas no presente e ​assim ​recuperar​ as suas raízes históricas, ​presentes​ não apenas nos despertamentos religiosos da América colonial, mas ​também ​nos movimentos cristãos de renovação ​ocorridos ​na Europa do século 16. Os evangélicos que fazem essa viagem a Wittenberg, Genebra, Zurique, Edimburgo e Londres descobrirão um mundo de profundo insight bíblico e teológico, um rico repositório de sabedoria prática e um presente dado por Deus à sua igreja para a vida e o ministério no século 21.[12]

Os reformadores não foram inovadores, mas redescobriram o tesouro da mensagem do evangelho. Essa redescoberta do evangelho não é um recurso para melhorar nossa autoestima ou nos ajudar a ascender socialmente, nem para fazer a igreja crescer em cinco passos ou qualquer outra coisa do gênero. Diz respeito a ouvir a mensagem revelada na Escritura sobre a graça de Deus no Cristo crucificado e crer nela; diz respeito a nossa morte e ressurreição diárias, enquanto aguardamos novos céus e nova terra.

Franklin Ferreira é doutor em Divindade pelo Puritan Reformed Theological Seminary, mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, SP, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Escreveu vários livros, entre eles: Avivamento para a igreja, Contra a idolatria do Estado, A igreja cristã na história, Pilares da fé, Por amor de Sião, Teologia sistemática (em coautoria com Alan Myatt) e Teologia sistemática (Curso Vida Nova de Teologia Básica), publicados por Vida Nova.
Esta obra apresenta os temas mais importantes que foram redescobertos pela Reforma protestante do século 16: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola gratia, Sola fide e Soli Deo gloria.

Deus se revela de forma salvífica somente na Escritura Sagrada, pecadores são redimidos somente pela morte de Jesus Cristo na cruz, somente por meio da graça, uma dádiva recebida somente pela fé e tudo para a glória de Deus somente.

Em Pilares da fé, cada uma das cinco declarações acima é desenvolvida com base no ensino das Escrituras Sagradas, dialogando com os principais reformadores da época — Martinho Lutero e João Calvino — e com as principais confissões de fé e catecismos das tradições luterana e reformada surgidas no mesmo período, as quais resumem o ensino dos reformadores. Essas afirmações também são relacionadas com as situações e desafios que a igreja cristã enfrenta na atualidade.

Publicado por Vida Nova.

Notas

[1] Grant R. Osborne, 3 perguntas cruciais sobre a Bíblia (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 164.

[2] Deve-se ter em mente que o movimento fundamentalista americano do final do século 19, com sua ênfase na inspiração das Escrituras, no nascimento virginal de Cristo, na sua morte salvadora e vicária, na realidade histórica de seus milagres, na ressurreição corporal de Cristo e em seu retorno final em glória, representou uma pièce de résistance contra o liberalismo teológico europeu dos séculos 18 e 19, o qual buscava reinterpretar ou negar tais ensinos. A partir do começo do século 20, novas ênfases, como o pré-milenarismo dispensacionalista e uma hermenêutica literalista, geraram as barreiras culturais que acabaram segregando o fundamentalismo.

[3] O gnosticismo era um movimento sincretista surgido no século 2 segundo o qual a alma era salva não apenas pelo conhecimento de uma suposta verdade, mas também pelo aprendizado de várias fórmulas mágicas pelas quais se poderia ter acesso a diversas partes do mundo superior. Ao subverter todas as principais declarações de fé cristãs, rejeitava ou reinterpretava o conteúdo cristão básico. No campo ético, oscilava entre um legalismo radical e um estilo de vida libertino e grosseiro.

[4] A expressão latina magister dixit, traduzida por “o mestre o disse”, é utilizada quando se constrói um argumento referindo-se a uma autoridade tida como inquestionável. Na Idade Média, esse conceito foi utilizado para afirmar o poder e a autoridade incontestáveis da tradição eclesiástica católica.

[5] O pelagianismo nega o pecado original, a escravidão da vontade e o auxílio da graça de Deus, ensinando que o ser humano sempre tem poder de se sobrepor ao pecado por meio da escolha do bem e do mal, podendo cumprir perfeitamente os mandamentos de Deus. A vida cristã consiste em um esforço constante, por meio do qual a pessoa vence seus pecados e obtém a salvação. Foi condenada como herética no Sínodo de Cartago, em 418.

[6] Devemos nos recusar a chamar o ensino da prosperidade de “teologia”. É preferível chamá-lo “mensagem da prosperidade”, pois essa noção, em geral associada às seitas neopentecostais, nada mais é que uma ideia mágica de vitória “espiritual” que transforma Deus em mero “devedor” da fé humana, já que é centrada no homem.

[7]Martinho Lutero, “Tratado de Martinho Lutero sobre a liberdade cristã”, Obras selecionadas (São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), vol. 2: O programa da Reforma, p. 438.

[8] Paulo F. Flor, Epístola aos Gálatas: um comentário (Porto Alegre: Concórdia, 2009), p. 26, 35: “Está Paulo realmente pronunciando uma maldição contra os pervertedores do Evangelho? Está. Ele o faz porque uma pessoa que ensina doutrina falsa conduz o povo para a condenação e não para a vida bem-aventurada. Ele não faz nada mais que repetir o veredicto de Jesus sobre os fariseus em Mateus 23.13-36. Está meramente confirmando a verdade escriturística sobre uma pessoa que perverte a palavra divina. […] Nessa época tão condescendente, […] que discute heresias com uma calma ecumênica sobre xícaras de chá, pode-se aprender com essa epístola a terrível seriedade pela qual o Evangelho da graça exclui todos os homens e movimentos que procuram reduzir a graça de Cristo Jesus”.

[9] Dietrich Bonhoeffer, “Protestantism without the Reformation”, in: Edwin H. Robertson, org., No rusty swords: letters, lectures and notes, 1928-1936 (London: Collins, 1965), p. 92-118.

[10] Martinho Lutero, “Am vierundzwanzigsten Sonntage nach Trinitatis”, Johann Georg Walch, Kirchen-Postille Evangelien-Predigten XI (St. Louis: Concordia, 1882), p. 1837, citado em Franz A. O. Piper, Teses sobre a doutrina da justificação (Porto Alegre/Canoas: Concórdia/ULBRA, 2006), p. 14.

[11] Franz A. O. Piper, Teses sobre a doutrina da justificação, p. 14.

[12] Scott M. Manetsch, “Discerning the divide: a review article”, Trinity Journal, vol. 28, n. 1 (2007): 62-3.

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