Uma visão teológica para o discipulado dos nossos filhos | Robert Thune

Qual o papel do mistério no universo teológico? | Aaron Armstrong
28/set/2026
Qual o papel do mistério no universo teológico? | Aaron Armstrong
28/set/2026

Quando fundei a igreja Coram Deo em Omaha, há 20 anos, nossa abordagem em relação ao ministério infantil era abertamente improvisada. Como tínhamos uma pequena congregação formada majoritariamente por jovens na faixa dos 20 anos e apenas cerca de 10 crianças com menos de 5 anos, nos concentramos nas necessidades mais urgentes, como estruturar um berçário simples para que os pais pudessem ouvir a pregação. Nossos esforços eram meramente reativos e careciam de uma visão integrada.

À medida que a igreja crescia, fomos criando programas para alunos do ensino fundamental e médio, mas tudo era feito de forma pontual, atendendo às demandas do momento sem um planejamento claro. Há cerca de cinco anos, resolvemos parar e refletir: “Como podemos estruturar o discipulado de forma sistemática do nascimento aos 18 anos?” Essa provocação nos levou a construir uma visão teológica que hoje norteia nossos ministérios infantil e de adolescentes, garantindo uma linha de ação unificada na formação da próxima geração na fé.

 

Princípios teológicos fundamentais

Nossa visão teológica parte de uma convicção fundamental baseada em Deuteronômio 6: os pais são os principais responsáveis pela formação espiritual de seus filhos. Aqui em Omaha, onde ministro, enfrentamos um desafio cultural marcante. Muitas igrejas da região trazem a herança do movimento de crescimento de igrejas das décadas de 80 e 90, somada a uma forte presença luterana e católica. Esse contexto favoreceu modelos focados em atrativos, nos quais os pais eram incentivados a simplesmente deixar os filhos nas atividades infantojuvenis, terceirizando a educação na fé para a igreja.

Essa postura tende a gerar acomodação, ignorando a missão essencial que Deus confiou às famílias. Na Coram Deo, buscamos mudar essa mentalidade ao destacar que os pais são os grandes protagonistas da caminhada espiritual dos filhos. Tudo o que fazemos em nosso ministério — do nascimento aos 18 anos — visa reforçar esse princípio, capacitando os pais a assumirem seu papel com responsabilidade, enquanto a igreja caminha lado a lado, oferecendo todo o suporte necessário.

Uma segunda convicção fundamental é que a vocação dos pais se resume a confiar e obedecer. É comum que pais (e até mesmo igrejas) enfatizem um desses aspectos e negligenciem o outro. Alguns priorizam a confiança, apoiando-se bastante na graça de Deus, mas deixam a obediência em segundo plano — o que pode gerar acomodação espiritual. Outros batem demais na tecla da obediência, alimentando um clima de ansiedade e medo. O ideal é buscar o equilíbrio entre os dois, incentivando os pais a se firmarem nas promessas de Deus enquanto seguem com fidelidade suas orientações na criação dos filhos.

Essa dupla perspectiva orienta todo o nosso trabalho de discipulado, tanto com os pais quanto com as crianças. Para ajudar pais e voluntários a assimilarem essa visão, estruturamos nossa proposta em quatro pilares fundamentais.

Promessa: confie nas promessas da aliança de Deus

Como uma igreja centrada no evangelho, começamos pelo indicativo — o que Deus prometeu fazer pelo seu povo. Nosso currículo e ensino enfatizam os compromissos da aliança de Deus, incentivando pais e filhos a confiarem e descansarem nessas promessas da mesma forma. Para os pais, isso significa fundamentar seus esforços na garantia da fidelidade divina. Para as crianças e jovens, isso envolve aprender a crer e confiar nas promessas imutáveis de Deus. Ao começarmos com as promessas, ancoramos o discipulado na boa-nova do Evangelho, garantindo que a confiança na Palavra de Deus seja o alicerce do crescimento espiritual.

Providência: Enxergue toda a vida sob a perspectiva de Deus

Como afirmava David Powlison, acreditamos que nada na vida está desconectado de Deus. Qualquer momento — seja ele rotineiro ou desafiador — é uma oportunidade pedagógica para o discipulado. Essa visão, fundamentada em Deuteronômio 6, convida os pais a encararem cada aspecto do dia a dia (como dilemas escolares, amizades, brigas entre irmãos ou problemas de saúde) como o cenário ideal para ensinar os filhos a conhecerem, confiarem e adorarem a Deus.

O discipulado não se limita aos cultos ou ao momento do devocional em família. Pelo contrário: a ação providencial de Deus em cada detalhe da vida abre portas diárias para ensinar as crianças sobre quem Ele é e como atua. Ao ajudarmos os pais a enxergarem as situações do cotidiano como parte do propósito soberano de Deus, nós os capacitamos a aproveitar cada uma dessas oportunidades para a formação espiritual, promovendo um discipulado que abrange a vida inteira.

Presença: Depender da presença de Deus

Queremos que os pais, os voluntários e as crianças tenham a plena certeza de que Deus está presente entre nós. Por mais que a dedicação e o preparo ao ensinar ou liderar sejam importantes, nossa esperança de ver os jovens abraçarem o Evangelho não depende da capacidade humana. O ponto crucial não é a oratória do professor da Escola Dominical ou o talento do líder de jovens, mas a convicção de que o próprio Deus habita em nosso meio. Descansamos em Sua presença, certos de que Ele opera no coração daqueles a quem servimos. Essa verdade tira um grande peso das costas dos pais e voluntários, lembrando-nos de que o Espírito Santo é o verdadeiro responsável pela transformação de vidas.

Progresso: Acolher o processo de crescimento

A criação e o discipulado dos filhos exigem bastante esforço, e esse caminho pode se tornar desanimador quando os frutos parecem demorar ou quando nos pegamos comparando nossa realidade com a de outras famílias. Por isso, incentivamos os pais a valorizarem os pequenos avanços em vez de perseguirem um ideal inalcançável de perfeição. A verdadeira questão é: nós, enquanto pais e igreja, estamos amadurecendo na confiança e na obediência a Cristo? Nossos filhos estão dando passos para conhecê-Lo e segui-Lo cada vez mais?

Essa busca pelo aprendizado contínuo nos protege do perfeccionismo e do legalismo — armadilhas que costumam gerar frustração ou uma busca exaustiva por desempenho. Em vez de focar na performance, descansamos no amor incondicional de Deus por Seu povo e nos firmamos em Suas promessas, certos de que Ele continua moldando tanto os adultos quanto as crianças nesse processo conjunto de amadurecimento com Cristo.

Esse arcabouço teológico não se destina apenas às famílias; ele molda a conduta de todos os envolvidos em nosso ministério. A lição de Jesus sobre a necessidade de nos tornarmos como criancinhas para entrar no Reino de Deus (Mt 18:3) nos recorda que o discipulado vai além de educar os mais novos: trata-se da transformação que Deus opera em nós mesmos. Ao discipularmos a próxima geração, somos confrontados com nosso próprio pecado, levados ao arrependimento e vocacionados a confiar em Deus de maneira mais profunda. Esse amadurecimento recíproco consolida uma cultura de discipulado na qual adultos e crianças crescem lado a lado no evangelho.

Implantando o discipulado dos nossos filhos

Diante do caráter fragmentado das nossas iniciativas iniciais, decidimos estruturar uma estratégia consistente de discipulado, cobrindo desde o nascimento até os 18 anos. Uma referência fundamental nesse processo foi o ensaio de Dorothy Sayers publicado em 1948, “As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem”. Embora o texto foque na educação formal, suas percepções sobre o desenvolvimento infantil fornecem um modelo precioso para o discipulado. Sayers divide a infância em três etapas — a do Papagaio, a do Impertinente e a do Poeta —, cada qual, com seus traços específicos, nos orienta sobre como abordar a espiritualidade em cada faixa etária.   Para nos adequarmos a essas etapas, organizamos nosso ministério em quatro faixas etárias: educação infantil (0 a 5 anos), ensino fundamental I (5 a 9 anos), catequese/discipulado de base (10 a 12 anos) e ministério de adolescentes e jovens (13 a 18 anos). Cada fase serve de alicerce para a seguinte, construindo uma jornada fluida de aprendizado. A seguir, detalho a abordagem adotada em cada etapa e como realizamos a transição para preparar os jovens para a fase seguinte de seu amadurecimento espiritual.

A Fase do Papagaio

“A etapa do papagaio”, escreve Sayers, “é aquela em que […] a criança adora recitar placas de carros, diverte-se repetindo rimas e sente prazer pelo simples ato de acumular informações.” Meus próprios filhos ilustram bem essa etapa: em viagens de carro, eles decoravam placas de veículos e memorizavam a escalação inteira dos times da NFL (futebol americano). Nessa fase, os pequenos têm uma sede enorme de absorver dados, o que torna o momento perfeito para ensinar-lhes as histórias e as verdades fundamentais das Escrituras.

Em nosso ministério infantil e de ensino fundamental, priorizamos a contação de histórias e a memorização para construir uma base bíblica sólida. As crianças aprendem as principais passagens da Bíblia, memorizam versículos e começam a compreender o panorama geral do plano de redenção de Deus. Desenvolvemos atividades voltadas para despertar sua curiosidade natural, incluindo lições bíblicas interativas e canções que reforçam as promessas divinas.

Em casa, incentivamos os pais a criarem uma rotina diária de devocionais — aproveitando as refeições, a hora de dormir ou até os trajetos de carro para ler a Bíblia e outros livros cristãos em família. A igreja também estimula o serviço comunitário em família, mostrando às crianças que nossa vida deve abençoar o próximo em nome de Jesus. Ao término dessa fase, elas já acumularam um repertório bíblico valioso e uma fé em constante crescimento, ficando prontas para o próximo passo.

A Fase do Impertinente

A fase do impertinente, como denomina Sayers, “caracteriza-se pela atitude de contradizer, retrucar e pelo gosto de ‘pegar os outros na contradição’ (especialmente os mais velhos) […] Trata-se de uma fase bastante desafiadora para os adultos.” Nessa etapa, as crianças adoram debater e questionar as autoridades. Lembro-me bem dos meus alunos de pré-adolescência apontando incoerências no que eu falava de uma semana para a outra! Abrangendo aproximadamente dos 10 aos 12 anos, essa é a fase em que o raciocínio lógico e crítico se desenvolve, tornando-se um momento crucial para aprofundar o entendimento da fé.

Por volta dos 10 ou 11 anos, as crianças da nossa igreja deixam o ministério infantil e passam a se integrar mais ativamente no culto principal. Nessa fase, apresentamos o Novo Catecismo da Cidade, em que elas participam de aulas quinzenais ao longo do quarto e do quinto ano. O programa culmina em um retiro no qual os pais declaram publicamente o amadurecimento espiritual dos filhos, e a igreja os acolhe oficialmente no ministério de adolescentes. Esse encontro funciona como um rito de passagem e uma grande celebração do desenvolvimento da fé do jovem e de seu papel crescente na comunidade da igreja.

A Fase do Poeta

A fase do poeta, como observou Sayers, é “aquela idade ‘complicada’. É uma etapa voltada para si mesmo, cheia de sede por autoexpressão, com uma forte tendência a se achar incompreendida; é uma fase inquieta, em que o jovem busca a todo custo a sua independência.” Os adolescentes costumam se sentir sós e agitados, mas também revelam um potencial enorme para a criatividade e a paixão. Grandes nomes da música, como os Beatles, deram o pontapé inicial em suas obras revolucionárias ainda na adolescência.

Em nossa igreja, o objetivo é ajudar os adolescentes a fincarem raízes teológicas profundas, a desenvolverem o caráter de Cristo e a caminharem rumo ao amadurecimento na fé. Sabemos que a adolescência é uma fase repleta de grandes questionamentos sobre identidade, propósito e convicções. É o momento em que os jovens começam a definir sua própria individualidade em relação aos pais e a consolidar sua compreensão pessoal do evangelho. Queremos apoiar esse processo de forma intencional e acolhedora.

Nessa etapa, vale a pena nos esforçarmos para cultivar amizades profundas e um forte senso de comunidade que vá além dos círculos escolares e grupos sociais. Diante dos desafios culturais e pessoais que os jovens enfrentam, nosso desejo é ajudá-los a construir uma visão de mundo claramente cristã. Um dos momentos mais marcantes do ano para mim é o jantar dos formandos: uma ocasião especial para celebrar a obra de Deus na vida de cada estudante, reconhecer seu amadurecimento e apontar direções para o futuro após a conclusão da escola.

Em casa, aprendi que liderar meus filhos adolescentes começa com a minha própria vivência da graça de Deus. Eles precisam enxergar que dependo de Cristo na mesma medida em que eles dependem. Conforme a rotina deles fica cheia e a vida ganha complexidade, os melhores papos sobre fé costumam surgir sem aviso: no fim da noite, após um dia puxado ou durante um trajeto de carro. Incentivamos os pais de nossa igreja a estarem presentes e atentos a esses instantes, prontos para compartilhar sabedoria, passagens bíblicas e bom senso quando as oportunidades se abrirem. Criar adolescentes é desafiador, mas também é uma oportunidade fantástica de acompanhá-los enquanto aprendem a entregar cada área de suas vidas a Jesus.

Esta também é uma fase em que passamos a discipular um número crescente de jovens vindos de lares não cristãos. Às vezes, eles foram convidados por um colega de escola, aproximados por um líder de ministério estudantil ou influenciados pelo exemplo de um dos avós. É evidente que a nossa visão dos pais como os principais encarregados do discipulado não se aplica quando o pai e a mãe não compartilham da fé. Por isso, buscamos capacitar os voluntários do ministério de adolescentes com um evangelismo consistente, promovendo espaços acolhedores e descontraídos (estudos bíblicos, clubes de leitura, jantares e ações comunitárias) nos quais os jovens não cristãos possam vivenciar a comunhão cristã de perto.

Cultivando uma Cultura de Discipulado

O discipulado da próxima geração não se resume a impactar os mais novos, mas diz respeito também ao modo como Deus os usa para nos transformar. Ao ensinarmos as crianças a confiarem e obedecerem, somos impulsados a fazer o mesmo — abandonando nossa própria incredulidade e nos lançando na graça de Deus. Esse amadurecimento compartilhado gera uma cultura viva de discipulado, na qual toda a comunidade cresce unida no Evangelho.

Esperamos que essa visão encoraje outras igrejas a estruturarem o discipulado de forma intencional, garantindo que cada jovem, desde os primeiros anos até a vida adulta, seja conduzido a uma fé sólida e perseverante.

 

Texto original: A Theological Vision for Discipling the Next Generation Traduzido e publicado no site Cruciforme com permissão.

 

(MA pelo Reformed Theological Seminary) é o pastor líder da Coram Deo, uma igreja centrada no evangelho que ele plantou em 2005, em Omaha, nos Estados Unidos. É coutor de A vida centrada no evangelho, outro estudo cristocêntrico para grupos pequenos. Bob e a esposa, Leigh, têm quatro filhos.

 

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