Qual o papel do mistério no universo teológico? | Aaron Armstrong

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Existe uma caricatura da teologia (e dos teólogos confessionais) que sugere não haver um lugar significativo para o mistério na vida cristã. O objetivo de explorar as Escrituras seria chegar a um ponto de total compreensão ou certeza absoluta sobre qualquer assunto, inclusive sobre a pessoa de Deus. Segundo eles, tudo o que se precisa para chegar ao conhecimento é tempo e esforço. Com isso, qualquer um que afirmar que existem coisas inexplicáveis por meio de argumentos lógicos carece de fé — o que não passa de arrogância.

Há também outra caricatura, que tenho visto com frequência, tipicamente entre pessoas que valorizam mais as experiências. Elas colocam a certeza em oposição à fé genuína. Segundo esse grupo, a teologia e a doutrina colocam Deus em uma caixa. Afinal, como muitos dizem, se achamos que já entendemos a pessoa de Deus por completo, o que descrevemos já não é Deus. O que, sejamos sinceros, beira o niilismo.

O problema das caricaturas é que elas se baseiam, em parte, na verdade. Há pessoas que deixam pouco espaço para o mistério. Há pessoas que rejeitam totalmente a ideia de certeza em favor de algo parecido com o ethos dos Alcoólicos Anônimos, que defende o conceito de “Deus do seu próprio entendimento”. Algumas pessoas são arrogantes, e outras são niilistas. Mas essas caricaturas são, na maioria das vezes, espantalhos. São simplificações excessivas que levam as pessoas a acreditar que realmente existe um conflito entre certeza e fé, como se fossem opostas entre si.

O mistério tem espaço na teologia?

Então vale a pena perguntar: qual é o lugar, se houver algum, do mistério no mundo da teologia? A resposta é relativamente simples: o mistério alimenta o trabalho da teologia. Pense nisso desta maneira: a natureza do próprio Evangelho é inerentemente singular — é única, diferente de qualquer outra cosmovisão ou religião. Afinal, cremos que Jesus, um homem de natureza divina e humana, morreu e ressuscitou em nosso lugar para nos reconciliar com Deus. Isso é fundamentalmente diferente não só de outras religiões, mas dos nossos próprios instintos e intuições. Essa breve afirmação já carrega uma série de mistérios:

  • Como pode uma pessoa ser tanto Deus quanto humana?

  • Como pode uma pessoa morta ressuscitar dentre os mortos?

  • De que forma a morte e a ressurreição de Jesus promovem essa reconciliação com Deus?

A teologia nos permite, como disse o Dr. Michael Allen em uma de suas aulas de Teologia Sistemática, explorar a profunda singularidade do Evangelho. Nesse sentido, o mistério é o elemento vital da teologia; é o que dá energia às nossas buscas. É exatamente aqui que encontramos o ponto central: não estudamos com o objetivo de resolver o mistério dentro das nossas confissões de fé. Em vez disso, buscamos discerni-lo. Afirmamos que esses pontos são mistérios por uma razão, e continuamos estudando e buscando compreendê-los por causa do nosso amor a Deus e ao próximo.

O mistério como combustível da nossa exploração

Há algo belo no processo de compreensão do mistério. Já estou nessa jornada há pouco mais de 20 anos. O ponto de partida para a minha própria exploração teológica começou quando eu ainda era um novo convertido. Lembro-me das vezes em que buscava compreender a fé que professava, e isso me impulsionou a procurar respostas. O que descobri é que, em vez de chegar a uma conclusão definitiva, cada resposta me conduzia a um convite para explorar ainda mais essas verdades. Isso é incrivelmente significativo porque nos ensina que não há fim para a nossa exploração de quem Deus é.

Portanto, qual é o lugar do mistério no mundo da teologia? Para mim, o mistério é o combustível que move a nossa exploração. Ele nos protege de nos tornarmos fundamentalistas arrogantes — aqueles que se julgam capazes de entender todas as coisas por meio dos seus próprios esforços. Da mesma forma, protege-nos do niilismo epistemológico, ou seja, de abandonarmos a capacidade de compreender qualquer assunto teológico por meio da razão.

Por fim, o mistério é o convite de Deus para que possamos continuar explorando as respostas para as nossas dúvidas. É o chamado para continuarmos curiosos e para abraçarmos aquilo que Lewis falou em sua obra A Última Batalha: “Venha mais para cima, venha mais para dentro!”.

 

Texto original: Where Does Mystery Fit in the World of Theology? Traduzido e publicado no site Cruciforme com permissão.

 

Aaron Armstrong é escritor em um ministério cristão internacional dedicado a cuidar das necessidades dos pobres. Também é pregador itinerante e blogueiro do BloggingTheologically.com. Ele e a família são membros da igreja Harvest Bible Chapel, em London, Ontário, no Canadá, onde servem juntamente. É autor do livro O fim da pobreza, publicado por Edições Vida Nova.

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