O cristão deve refletir sobre política? | Wayne Grudem

Manifestando o amor de Deus através da diaconia | Robert H. Thune
14/set/2026
Manifestando o amor de Deus através da diaconia | Robert H. Thune
14/set/2026

Uma visão equivocada a respeito de cristãos e política é promovida por evangélicos que dizem, em essência: “Devemos apenas pregar o evangelho; esse é o único modo pelo qual os cristãos têm esperança de transformar o coração das pessoas e transformar nossa sociedade”.

Chamo essa visão de “dedique-se ao evangelismo, e não à política”. De acordo com ela, a igreja é chamada somente para “pregar o evangelho”, e não para falar de política. Ouço esse ponto de vista manifestado com frequência em conversas pessoais. Mas será que ele é defendido por algum autor evangélico? Há autores que se mostram propensos a adotar essa abordagem, embora a atenuem com declarações de que é apropriado a igreja exercer alguma influência política. Só que esse envolvimento não trará nenhum benefício espiritual ou eterno! Considere algumas das asserções de Cal Thomas e John MacArthur, dois escritores pelos quais tenho (no tocante a outros assuntos) grande admiração. Cal Thomas, colunista publicado em jornais do país inteiro, comenta:

Por mais que se esforcem para proteger o evangelho da corrupção, os pastores que se voltam para a política e para os políticos como meio de redenção acabam minimizando seu chamado e sua mensagem mais fundamentais. O caminho para a redenção não passa por Washington, D.C. Políticos não são capazes de salvar a si mesmos da tentação de Washington. O que levaria alguém a imaginar que podem salvar o restante do povo?[1]

Em sua obra Why Government Can’t Save You [Por que o governo não é capaz de salvá-lo], John MacArthur escreve:

Não há nada errado em apoiar ocasionalmente medidas legítimas que visam corrigir uma injustiça social ou política gritante […]. Certa dose de interesse saudável e equilibrado pelas tendências atuais no governo e na comunidade é aceitável, desde que tenhamos consciência de que esse interesse não é vital para nossa vida pessoal, nem para nosso testemunho íntegro, nem para o progresso do reino de Cristo. Acima de tudo, o envolvimento do cristão com a política não deve jamais tomar o lugar prioritário da pregação e do ensino do evangelho, pois a moralidade e a retidão que Deus procura resultam da salvação e da santificação.[2]

[Jesus] não veio ao mundo para tornar virtuosa a velha criação por meio de reformas sociais e governamentais, mas sim para tornar santas as novas criaturas (seu povo) por meio do poder salvífico do evangelho e pela obra transformadora do Espírito Santo.[3]

 

Uma visão muito restrita de “evangelho” e do reino de Deus

Embora concorde com Thomas e MacArthur em muitos outros assuntos, não concordo com o modo como eles depreciam o envolvimento cristão com a política visando aos propósitos de Deus aqui na terra. A meu ver, tal perspectiva representa uma visão muito restrita da obra do reino de Deus e da natureza da mensagem do evangelho cristão.

No Novo Testamento, “o evangelho” não é apenas “creia em Jesus, seja perdoado de todos os seus pecados, cresça em santidade e vá para o céu” (embora tudo isso certamente seja verdade e constitua o cerne do evangelho e sua mensagem fundamental). Não, o evangelho é boa-nova de Deus com respeito à vida como um todo! Jesus disse: “Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei” (Mt 28.19,20). “Todas as coisas que vos ordenei” significa muito mais que João 3.16, por mais maravilhoso que seja esse versículo.

Todas as coisas que Jesus ordenou inclui tudo o que ele ensinou, conforme registrado nos quatro Evangelhos. Isso porque Jesus prometeu a seus discípulos não apenas que o Espírito Santo os faria “lembrar de tudo que eu [lhes] tenho dito” (Jo 14.26), mas também que o Espírito Santo lhes “[ensina- ria] todas as coisas” (v. 26) e os “[conduziria] a toda a verdade” (Jo 16.13).

Por isso, o apóstolo Pedro disse que o “mandamento do Senhor e Salvador” foi “dado por meio de vossos apóstolos” (2Pe 3.2), e Paulo afirmou: “As coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1Co 14.37). Suas epístolas também são coisas que Jesus nos ordena! Tanto os Evangelhos como as Epístolas do Novo Testamento chegaram até nós investidos da autoridade de Jesus, e ele deseja que ensinemos essas coisas a nossas igrejas.

E quanto ao Antigo Testamento? Uma vez que Jesus Cristo e os apóstolos se apoiaram repetidamente no Antigo Testamento como Palavra de Deus, também recebemos as Escrituras do Antigo Testamento com a autoridade de Jesus e de seus apóstolos. Portanto, entendida no sentido mais amplo, a frase “ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei” significa que devemos ensinar fielmente toda a Bíblia àqueles que se tornam discípulos de Jesus. A pregação de “todo o evangelho” deve incluir a pregação daquilo que a Bíblia diz a respeito do governo civil. Isso significa que os cristãos aprenderão na Bíblia sobre como influenciar governos de modo positivo. E, uma vez que essas coisas são ensinadas na Bíblia, Deus deve considerá-las importantes para o progresso de seu reino e para o cumprimento de seus propósitos na terra.

O ativismo político cristão traz algum benefício espiritual? A resposta resumida é: se faz parte daquilo que Deus nos ensina nas Escrituras, então é evidente que traz benefícios espirituais, pois agrada a Deus. “Porque o amor de Deus está nisto: em guardarmos seus mandamentos” (1Jo 5.3). Portanto, seguir os ensinamentos de Deus a respeito do governo é uma das formas de mostrar amor por ele.

Outra resposta é fornecida por Tom Minnery, que volta a atenção para o exemplo da vida de Jesus. Ele não se limitou a perdoar os pecados das pessoas; também as curou de suas enfermidades físicas. Jesus se preocupava não apenas com a vida espiritual delas, mas também com o bem-estar material de sua vida neste mundo. Aos olhos de Deus, curar o corpo das pessoas era uma forma de fazer o bem espiritualmente. Minnery aplica essa norma a qualquer ação social que realizemos com a finalidade de trazer melhorias à vida das pessoas:

A ação social não apenas segue o evangelismo como consequência e objetivo e o antecede como ponte, mas também o acompanha como parceira. Jesus, em seu próprio ministério, andou por toda parte ensinando e pregando e também fazendo o bem e curando. Ambas as coisas eram expressões de sua compaixão pelas pessoas, e ambas devem ser expressão de nossa compaixão por elas.[4]

Logo, não posso concordar com a declaração de John MacArthur a respeito dos efeitos dos bons e dos maus governos:

Em última análise, o ideal humano de governo não contribui de maneira alguma para o progresso do reino de Deus; além disso, nem mesmo o pior e mais tirano governo do mundo pode, no fim das contas, deter o poder do Espírito Santo ou a propagação da Palavra de Deus.[5]

Penso na diferença entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Embora o governo ditatorial e opressor da Coreia do Norte não tenha detido completamente a propagação da Palavra de Deus, sua perseguição intensa cria tantos empecilhos que milhões de norte-coreanos nascem, vivem e morrem sem ouvir falar de Jesus Cristo, e a Coreia do Norte não envia missionários a outras partes do mundo. Em contrapartida, na Coreia do Sul, onde o governo proporcionou liberdade, a igreja cresce, prospera e envia missionários ao mundo inteiro. Também podemos comparar a igreja relativamente pequena e reprimida de Cuba, que não consegue enviar missionários, com as igrejas prós- peras de diversos países da América Latina onde há mais liberdade. Os governos fazem, sim, diferença na obra do reino de Deus. Por isso Paulo conclamou os cristãos a orar “pelos reis e por todos que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e serena, em toda piedade e honestidade” (1Tm 2.2). Ou seja, um bom governo ajuda o povo a ter uma vida “tranquila” e de “piedade”, enquanto um mau governo impede que isso aconteça.

Governos podem permitir que igrejas se reúnam livremente e evangelizem ou podem criar leis que as impeçam de fazê-lo (como é o caso na Arábia Saudita e na Coreia do Norte). Podem impedir ou promover a alfabetização (que possibilita a leitura da Bíblia). Podem deter assassinos, ladrões, motoristas embriagados e pessoas que abusam de crianças ou podem deixar que aterrorizem a sociedade e destruam vidas. Podem promover e proteger casamentos ou dificultá-los e até destruí-los. Governos fazem uma grande diferença na obra de Deus na terra e devemos orar e trabalhar para que haja bons governos ao redor do mundo.

 

Notas

[1]“Pulpit Bullies”, Tribune Media Services (3 de outubro de 2008). Cf. www.calthomas.com/index.php?news=2381. A visão de dedicar-se ao evangelismo, não à política, também é promovida pelo livro de Greg Boyd The Myth of a Christian Nation, do qual tratamos na seção anterior.

[2] Grand Rapids: Zondervan, 2000, p. 8, grifo nosso.

[3] Ibidem, p. 11-2.

[4] Why You Can’t Stay Silent: a Biblical Mandate to Shape Our Culture, Wheaton: Tyndale House, 2001, p. 49.

[5] Op. cit., p. 7.

 

Trecho extraído e adaptado da obra “Política segundo a Bíblia“, de Wayne Grudem. Publicado no site cruciforme com permissão.

 

Wayne Grudem é professor pesquisador de Teologia e Bíblia pelo Phoenix Seminary, no Arizona. Foi professor titular do departamento de Teologia Bíblica e Sistemática da Trinity Evangelical Divinity School durante vinte anos. É graduado em Harvard, mestre em Teologia pelo Westminster Theological Seminary e doutor pela Universidade de Cambridge. É autor de Teologia sistemática, Entenda a fé cristã, Política segundo a Bíblia, Economia e política na cosmovisão cristã, Comentário bíblico de 1Pedro e A pobreza das nações, publicados por Vida Nova.
As igrejas devem exercer alguma influência na política? Pastores devem pregar sobre temas políticos? Existe somente um posicionamento “cristão” em relação a questões políticas? A Bíblia traz algum ensinamento a respeito de como as pessoas devem votar?

Se já fez a si mesmo ao menos uma dessas perguntas, não pode deixar de ler este livro! Nele o autor lança mão de três tipos de argumentos para orientar uma visão política de acordo com a Bíblia: argumentos baseados em declarações bíblicas explícitas; argumentos baseados em princípios bíblicos mais amplos e argumentos baseados em uma avaliação de fatos relevantes no mundo de hoje.

Esta obra é uma edição parcial da que o autor publicou em inglês, pois muitos capítulos da obra original tratavam de questões específicas do contexto norte-americano. Sendo assim, fizemos uma seleção dos capítulos fundamentais para que os cristãos de língua portuguesa possam ter uma visão política segundo a Bíblia.

Publicado por Edições Vida Nova.

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