Manifestando o amor de Deus através da diaconia | Robert H. Thune

Prevenindo a queda pastoral | Tim Challies
08/set/2026
Prevenindo a queda pastoral | Tim Challies
08/set/2026

Os textos de 1 e 2Timóteo e Tito são chamados de “Epístolas Pastorais” porque foram escritos para jovens pastores. Estes livros estão cheios de sabedoria e orientação para quem lidera a igreja. Uma das coisas que os textos revelam é a responsabilidade dos líderes da igreja para com quem integra a família da igreja.

O texto de 1Timóteo 5.9 começa com a frase: “Que a viúva seja inscrita se…”. Outras traduções falam de uma viúva ser “colocada na lista” (NIV) ou “colocada na lista oficial de apoio” (HCSB). Em outras palavras, o texto menciona as viúvas que a igreja tem a responsabilidade de sustentar. No primeiro século, não havia programas sociais, nem apólices de seguro de vida, tampouco rede de segurança governamental. Os mais vulneráveis eram cuidados pela igreja. E a igreja do Novo Testamento mantinha uma lista para esclarecer com exatidão quem se qualificava. Se uma viúva tivesse família, a família devia tomar conta dela; se fosse mais nova e estivesse em idade de se casar, a comunidade à sua volta devia ajudá-la a encontrar um cônjuge; agora, se tivesse pelo menos sessenta anos (1Tm 5.9) e uma reputação de boas obras, devia ser acrescentada à lista da igreja.

Lendo a passagem à luz de Atos 6.1-6, podemos deduzir que cuidar das viúvas cristãs (e de outros necessitados) era a tarefa primordial dos diáconos. A igreja primitiva era responsável para com as pessoas que a integravam, e essa responsabilidade envolvia providenciar comida, abrigo e assistência material. A menção a uma “lista oficial de apoio” implica ordem e organização. Alguém deveria criar a lista, mantê-la atualizada e avaliar as viúvas de acordo com os critérios dessa lista. Esse era o trabalho dos primeiros diáconos. O documento cristão do quarto século, conhecido como Constituições Apostólicas, determina que os diáconos “sejam praticantes de boas obras, exercendo a supervisão geral de dia e de noite, não desprezando os pobres nem tratando com deferência os mais ricos; devem verificar quem está em dificuldades e não os excluir de uma parte dos fundos da igreja, obrigando também os abastados a separar dinheiro para as boas obras”[1].

Assim, os diáconos têm uma responsabilidade voltada para os de dentro: eles ajudam a cuidar da família da igreja. Enquanto a responsabilidade dos presbíteros para com os de dentro se relaciona principalmente com os cuidados espirituais, a responsabilidade dos diáconos para com os de dentro diz respeito, de maneira principal, aos cuidados práticos. Correndo o risco de simplificar demais: os presbíteros cuidam das necessidades espirituais do rebanho, e os diáconos ajudam os presbíteros ao cuidar das necessidades mais práticas e materiais do rebanho.

É claro que essas necessidades não são separadas com tanta facilidade. O ser humano é uma unidade psicossomática: corpo e alma. Nossas necessidades materiais se sobrepõem muitas vezes às espirituais, e nossas doenças espirituais se manifestam muitas vezes de forma material.  Com isso, os diáconos ministram ao lado dos presbíteros para satisfazer as necessidades do rebanho. Ou, como disse Jamie Dunlop: “Os presbíteros lideram o ministério, os diáconos facilitam o ministério, a congregação realiza o ministério”[2].

Alguns exemplos concretos podem ajudar a esclarecer a forma como isso funciona.

Pouco tempo atrás, um jovem da nossa igreja morreu de câncer. Deixou mulher e um filho de dois anos. Como imigrantes da Ásia Central, eles enfrentaram barreiras linguísticas e culturais ao lidar com as complexidades dos cuidados médicos. Quando a triste possibilidade da morte se aproximou, os membros, os presbíteros e os diáconos da nossa igreja entraram em ação.

Os membros da igreja se coordenaram para cuidar da criança, ajudaram a família para lidar com os profissionais de saúde e forneceram refeições durante os períodos de hospitalização e quimioterapia. Os presbíteros visitaram o hospital, oraram pela cura, leram as Escrituras em voz alta com o casal e, por fim, oficiaram o funeral. Eles também aconselharam os membros da igreja sobre como enfrentar a morte e o luto por meio da fé. Depois do funeral, um diácono foi enviado para sentar-se à mesa da cozinha com a viúva em luto e rever todas as suas obrigações financeiras. Em seguida, apresentou as necessidades dela a um grupo maior de diáconos, que utilizou fundos da tesouraria da igreja para ajudar a pagar as despesas do funeral e as contas. Durante todo o processo, era evidente o espírito de parceria. Por vezes, um pastor ou um presbítero liderava o processo. Outras vezes, um diácono assumia a liderança. E em outros casos, um membro da igreja estendia a mão com um apelo à ação. Toda a gama de ministérios da igreja local estava sendo usada enquanto os membros, os diáconos e os presbíteros cumpriam cada um com a sua responsabilidade bíblica.

Um segundo exemplo: à medida que a nossa igreja foi crescendo, percebemos a necessidade crescente de aconselhamento bíblico entre os membros da nossa congregação. Houve um tempo em que podíamos atender a essa demanda disponibilizando um pastor quando necessário. Mas essa capacidade foi ultrapassada. Agora, uma equipe de diáconos e presbíteros trabalha em conjunto para fornecer aconselhamento bíblico à congregação.

Um dos pastores da nossa equipe supervisiona o ministério de cuidados e aconselhamento, assegurando sua fidelidade às Escrituras e a concordância com as nossas convicções teológicas. Ele também supervisiona a formação e preparação dos conselheiros, e realiza, pessoalmente, vários aconselhamentos bíblicos, entrando muitas vezes em situações mais difíceis ou complicadas. Três diáconos — um homem e duas mulheres — trabalham com ele. Eles “estendem o seu alcance”, encontrando-se com os membros da igreja. Um dos diáconos desempenha o papel de pessoa de referência: quando alguém pede aconselhamento bíblico, ele entra em contato com a pessoa, acompanha-a no processo de admissão e marca uma reunião. Prepara também relatórios para os presbíteros para os ajudar a acompanhar o ministério, uma vez que o aconselhamento bíblico é um subconjunto do trabalho de pastoreio mais amplo da igreja. Quando diáconos e presbíteros trabalham em conjunto, as pessoas crescem em Cristo e o corpo é edificado em amor (Ef 4.16).

Esses são apenas dois exemplos de como os diáconos cumprem as suas responsabilidades para com os de dentro, trabalhando ao lado dos presbíteros e dos membros. Se quiser “servir bem” como diácono (1Tm 3.13), você precisa estar atento às necessidades do povo de Deus. Deve prestar atenção aos pontos específicos da sua igreja local onde a melhor organização conduzirá ao ministério mais eficaz. Onde está a “lista oficial de apoio” em sua igreja? Quem a mantém atualizada? Quem garante sua execução? Quem se certifica de que ninguém é esquecido (At 6.1).

Muitas vezes, os pastores e os membros da igreja estão conscientes das necessidades do corpo; o que acontece é que ninguém organiza, sistematiza e executa a satisfação dessas necessidades. Os diáconos fazem exatamente isso. Eles trazem ordem onde há desordem, clareza onde há confusão e estrutura onde não há nenhuma. Tornam o serviço mais fácil. Os diáconos criam caminhos para as pessoas se envolverem no ministério. Encontram soluções para os problemas que impedem a igreja de cuidar dos seus membros.

Isso nos leva de volta à questão levantada na Introdução: os diáconos são realizadores. São proativos, não reativos. Ninguém deve aceitar o título de diácono apenas por desejar uma posição, ou por querer ser visto como líder. Os diáconos fazem as coisas acontecer. Tomam a iniciativa, identificam as necessidades, avançam em direção aos problemas. Um dos meus amigos pastores, ao nomear uma nova diaconisa para supervisionar uma área do ministério, disse a ela: “Seu trabalho é tirar esta área do ministério da minha cabeça”. Não que ele não estivesse disposto a investir tempo e energia nessa área do ministério; na verdade, havia anos que ele a vinha realizando! Em vez disso, seu desejo era que ela compreendesse sua liberdade, responsabilidade e capacidade de agir como diaconisa. Ao liderar esse aspecto do ministério da igreja, ela liberava o pastor para não pensar nisso. E em um ministério em crescimento, isso é uma grande bênção.

 

Conclusão

Ao antecipar as várias formas de cumprir suas responsabilidades para com os de dentro, lembre-se do quadro geral: seu Pai no céu satisfaz as necessidades de seu povo por intermédio de você. Jesus disse aos seus discípulos: “Não andem ansiosos, dizendo: “Que havemos de comer?” ou “Que havemos de beber?” ou “Que havemos de vestir? Porque os gentios procuram todas estas coisas, e o Pai celestial de vocês sabe que precisam de todas elas. Mas procurem primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.31-33).

Se perguntarmos como o nosso Pai celestial suprirá as necessidades, parte da resposta é: por meio da igreja local! Deus concede à sua igreja diáconos, encarrega-os de “servir bem” (1Tm 3.13), para que por intermédio deles seu povo possa experimentar seu cuidado paternal.

Deixe que isso fale fundo ao coração: o nosso Pai do céu manifesta seu amor a seu povo por intermédio de você. Que isso o encha de alegria, adoração e gratidão ao responder às necessidades da sua igreja.


Notas

[1] Citado em Rodney Stark, The triumph of Christianity: how the Jesus movement became the world’s largest religion (New York: HarperCollins, 2011), p. 114.

[2] Jamie Dunlop, “Deacons: shock-absorbers and servants”, 9 Marks Journal, 31 de março de 2010, disponível em: https://www.9marks.org/article/deacons-shock-absorbers-and-servants/, acesso em: 26 ago. 2025

 


 

Trecho extraído e adaptado da obra “Diáconos centrados no evangelho“, de Robert H. Thune. Publicado no site cruciforme com permissão.

 

(MA pelo Reformed Theological Seminary) é o pastor líder da Coram Deo, uma igreja centrada no evangelho que ele plantou em 2005, em Omaha, nos Estados Unidos. É coutor de A vida centrada no evangelho, outro estudo cristocêntrico para grupos pequenos. Bob e a esposa, Leigh, têm quatro filhos.

Toda igreja local precisa de pessoas dispostas a assumir a liderança no atendimento às necessidades práticas.

Com 8 lições bíblicas práticas e objetivas, acompanhadas de exercícios ao final de cada capítulo, este livro ajudará tanto os pequenos grupos quanto o discipulado individual a compreender e responder a uma pergunta fundamental: o que é um diácono?

Diáconos centrados no evangelho: equipando líderes servos foi planejado para...

preparar pessoas para o ministério prático no ofício do diaconato;
promover a compreensão de que servir aos outros é também servir a Cristo;
ensinar que os diáconos são oficiais da igreja local;
mostrar que todo diácono é um servo, embora nem todo servo seja diácono;
esclarecer a distinção entre presbíteros e diáconos: o presbítero serve liderando, enquanto o diácono lidera servindo;
qualificar tanto homens quanto mulheres para servir como diáconos;
estabelecer que tipo de liderança a igreja local deve buscar.
Este livro foi escrito para líderes de igrejas que desejam aprofundar sua compreensão teológica sobre o tema, diáconos em treinamento ou em processo de avaliação e cristãos que buscam compreender o ensino bíblico sobre o papel e a liderança do diácono na igreja local.

 

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