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The Fall of Man (Hendrick Goltzius, 1616)

O feminismo é mais um ramo de interpretação sociológica com potencial consideravelmente elevado para influenciar a interpretação da Bíblia feita pela igreja.

Ele não era originalmente uma parte muito significativa da teoria sociológica ou da teologia da libertação, mas emergiu em anos recentes à medida que as mulheres passaram a assumir cargos de liderança na igreja. A linguagem de “opressão” usada por teólogos da América do Sul tem sido adotada e adaptada a interesses feministas, às vezes de um modo um tanto impróprio. Do mesmo modo que na teologia da libertação, a teologia feminista começa com uma situação concreta. A maioria das pessoas concorda que o papel das mulheres na igreja foi subestimado ao longo dos anos e que as mulheres foram em certa medida discriminadas pelos homens. Nesse caso, no entanto, a tendência de exagerar é muito maior que na teologia da libertação.

O relacionamento macho-fêmea é um problema universal, na opinião de feministas, e as mulheres sofrem discriminação tanto no Ocidente quanto no Terceiro Mundo. Além disso, essa discriminação é muitas vezes resultado de certa interpretação da Bíblia que na superfície parece ser bastante justificada. A teologia feminista diverge da maioria dos outros modelos desse tipo pelo fato de que ataca a Bíblia, bem como a igreja, e insiste na necessidade de mudança em ambas. A posição é expressa com grande clareza pelo teólogo J. L. Hardegree Jr. (1983):

… precisamos estar preparados para aceitar a realidade de aspectos da Bíblia com que discordamos. Um exemplo é a linguagem “másculo-centrada” e as atitudes “másculo-chauvinistas” gerais que encontramos na Bíblia. A Bíblia não pode ser perdoada nesse aspecto; ela precisa ser derrotada. Como isso deverá ser feito ainda não está inteiramente claro. Por enquanto, precisamos estar firmes em nosso argumento contra esses males ou limitações encontrados na Bíblia, por exemplo, recusando-nos a usar qualquer uma dessas passagens ofensivas em expressões litúrgicas sem repeti-las em uma linguagem que mostre plena valorização das mulheres bem como dos homens.

Essa abordagem levou a uma adulteração comum do idioma inglês, por causa do uso duplo possível para a palavra “homem”. No fundo disso está um equívoco a respeito do significado da linguagem que já causou grande confusão. Na Bíblia, substantivos e pronomes masculinos são usados para incluir os dois sexos — uma prática muito comum nos idiomas mundiais e que nunca foi considerada “sexista”. Em um nível mais sério, uma das razões às vezes apresentadas para continuar essa prática na igreja é que o uso de imagem feminina, fora do uso apenas como restritivo, tem a conotação de um culto de fertilidade. Também há o problema prático de que o Salvador do mundo era homem e de que a cristologia como a conhecemos não poderia funcionar de outro modo. Se Deus fosse fêmea e sua filha fosse o Messias prometido, como ela teria adquirido uma natureza humana? Não seria possível imaginar uma relação sexual entre José e a Mãe divina a não ser que ela também se encarnasse primeiro, mas isso destruiria a natureza singular da Filha. É impossível levar o feminismo às suas últimas consequências e ainda permanecer nos limites da fé cristã tradicional — conclusão prontamente valorizada por aqueles interessados em defender essa mesma fé cristã.

Da perspectiva feminista, a história bíblica deve ser interpretada como dois grandes momentos — criação e redenção — em que mulheres e homens eram plenamente iguais. Após cada um deles, no entanto, as mulheres perderam sua igualdade em relação aos homens e decaíram em sua condição. No Antigo Testamento, isso foi conservado na Lei de Moisés e na vida cotidiana do povo. Observâncias religiosas eram uma exclusividade masculina, e somente homens continham o sinal da aliança, a circuncisão. O máximo que se fez para explicar isso foi dizer que Eva havia pecado primeiro e desencaminhado Adão no Jardim do Éden. A subordinação ao homem, portanto, foi a punição da mulher (cf. 1Tm 2.11-15).

No Novo Testamento, Jesus reestabeleceu a igualdade entre homem e mulher (cf. Gl 3.28), mas isso logo foi empurrado para o fundo por uma igreja dominada por homens e profundamente influenciada por algo chamado “patriarcado”, um termo sociológico que significa “dominação masculina”. (Observe a diferença entre o uso sociológico e o teológico desse termo; para um teólogo, “patriarca” é um termo de honra aplicado a Abraão, Isaque e Jacó ou aos líderes das mais importantes igrejas orientais.) Tanto esse problema como o modo de confrontá-lo são esmiuçados por Elisabeth Schüssler Fiorenza (1983):

O processo de patriarcalização e institucionalização não é um mero fato consumado, mas um movimento inicial em um “jogo de poder” contínuo que requer uma análise sociológica e teológica para recuperar o fundamento bíblico e teológico para o lugar pleno da mulher na igreja de hoje. A igualdade sexual do movimento de Jesus e dos primeiros missionários cristãos precisa ser reafirmada por um modelo interpretativo igualitário que reconheça plenamente o conflito entre igualdade e hierarquia na igreja primitiva — uma batalha que foi reaberta em nossa época.

A crítica à teologia feminista geralmente é feita do seguinte modo:

1. Ela é contrária ao que a Bíblia diz e ensina. Isso às vezes é admitido por defensores do feminismo, que argumentam que a Bíblia está errada nesse aspecto. Alguns feministas admitirão que o ensino bíblico era progressista no contexto da época (isso é especialmente verdadeiro a respeito de Jesus), mas tal realidade não é mais adequada. A Bíblia precisa ser atualizada e, sempre que necessário, substituída. Os defensores da autoridade bíblica, por mais que possam simpatizar com algumas das observações feitas por feministas, não podem segui-los nisso. O relato histórico permanece o que é, sejam quais forem os sentimentos de intérpretes modernos. Alterar isso arbitrariamente, até mesmo com a melhor das intenções, é ir contra o significado claro do texto e produzir outras distorções (como o problema cristológico mencionado acima).

2. Ela não reconhece que o uso de linguagem masculina pela Bíblia não é sexista, mas inclusiva. Pode ser difícil para algumas mulheres entenderem e aceitarem isso, mas não deixa de ser um fato e é um fato que faz sentido em seu contexto. Argumentar que as Escrituras têm um preconceito másculo-chauvinista ou que ela está repleta de “patriarcado” é impor um falso modelo a ela. O que a Bíblia realmente ensina é que homens e mulheres são completamente complementares uns aos outros. Como seres humanos, eles são tanto iguais como diferentes. A ideia feminista moderna de “igualdade” é um conceito unissex, que não é nem um pouco bíblico. Ao afirmar que não há nenhuma diferença significativa entre os sexos, os feministas correm o risco de destruir a sociedade humana reduzindo todas as pessoas ao conceito andrógino de “ser humano” ou “pessoa”.

3. Ela sujeitou a Bíblia completamente à sua própria agenda. A acusação muitas vezes feita contra a teologia da libertação é provavelmente ainda mais apropriada nesse caso. Um exemplo pode ser extraído do comentário de E. A. Judge (não é feminista) que escreveu (1972) sobre as mulheres nas igrejas paulinas:

Vale a pena observar a condição das mulheres que davam apoio a Paulo. Elas são claramente pessoas de certa independência e eminentes em seus círculos, acostumadas a receber pessoas e organizar suas próprias reuniões — se assim eram as reuniões com Paulo — como mais lhes parecia adequado.

O observador imparcial poderia pensar que Judge estava expressando uma visão elevada do papel da mulher na época de Paulo, mas não é o que pensa E. S. Fiorenza. Seu comentário (em Gottwald, 1983) sobre a observação de Judge é esta:

Essa interpretação equivocada reduz o papel influente das mulheres no movimento dos primeiros cristãos ao de donas de casa que têm permissão para servir café após as preleções de Paulo! Visto que os exegetas do Novo Testamento pressupõem que a liderança de certas comunidades cristãs estava nas mãos de homens, eles pressupõem que aquelas mulheres mencionadas nas cartas de Paulo eram colaboradoras e assistentes dos apóstolos, especialmente de Paulo.

É difícil não pensar que a interpretação de Judge por Fiorenza é perversa e ditada por uma agenda de que nem ele nem o Novo Testamento tinham consciência.

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Fortemente ligada a isso está a questão do papel da mulher na liderança da igreja primitiva, e neste ponto a teologia feminista pode novamente exibir uma perversidade quase de tirar o fôlego. A escassez de referências à mulher em papéis de liderança no Novo Testamento pode ser explicada não como um fato da vida na época, mas como um reflexo dos propósitos polêmicos das cartas paulinas. A razão por que Paulo aparentemente não menciona mais vezes líderes do sexo feminino era a ausência de necessidade; elas não estavam causando os problemas com que ele estava tentando lidar. A restrição de termos como episkopos (bispo) e presbyteros (presbítero) a homens é o resultado de um preconceito posterior; como o uso de diakonos (diácono) demonstra, esses termos podiam se aplicar tão bem a mulheres quanto a homens. Novamente, a ausência de exemplos para evidenciar esse argumento é considerada fortuita e não significa nada.

Igualmente peculiares são as tentativas de fazer a palavra grega Kephalē (1Co 11.3) significar “fonte”, e não “cabeça”, quando o primeiro significado mal é atestado na literatura grega antiga e não se encaixa no contexto. Até mesmo o esforço de fazer a palavra grega authentein significar “dominar”, e não “ter autoridade sobre” (1Tm 2.12), embora mais plausível, tem sabor de apelo especial. Qualquer que seja a evidência passível de ser produzida para defender essa ideia, o fato permanece que authentein nunca foi entendido desse modo, e também há pouca chance de um significado desse tipo vir à mente de alguém que não conhece a posição feminista. Vale a pena observar que The women’s Bible commentary [Comentário bíblico das mulheres] (1992) apresenta cautela quanto à ideia de “fonte”, embora de modo geral seja favorável a ela e não diga nada a respeito do significado alternativo de authentein. É um fato bem conhecido que a principal objeção teológica à liderança feminina na igreja se baseia no ensino das Cartas Pastorais e, assim, é extremamente importante para intérpretes feministas insistir na origem não paulina dessas cartas. Vale a pena citar em detalhes The women’s Bible commentary [Comentário bíblico das mulheres] sobre esse ponto:

O autor apela às histórias da Criação como justificação para a subordinação feminina. Adão foi criado primeiro, então Eva; além disso, foi Eva, e não Adão, que “foi enganada e caiu em transgressão”. A expressão grega sugere que o autor pode estar apelando a uma tradição judaica em que a serpente seduz (não simplesmente “engana”) Eva. Se esse é o caso, seu pecado é sexual. Paulo também usa a criação anterior de Adão para defender a subordinação da mulher (1Co 11.8,9). No entanto, de acordo com Paulo, Adão, o primeiro humano, cometeu o primeiro pecado — desobediência (Rm 5.12-21). Além disso, os cristãos são uma nova criação em que o pecado é derrotado e não há “homem nem mulher” (Gl 3.28). Para Paulo, a subordinação de mulheres a homens fazia parte da antiga ordem da criação, mas não era parte da nova criação em Cristo. Assim, o autor das Pastorais contradiz Paulo e outras compreensões cristãs primitivas.

Não é difícil demonstrar a função do apelo especial na citação acima. Pode ser que o autor esteja apelando a uma tradição judaica, mas isso de modo algum é certo, e evidência alguma é fornecida para defender essa afirmação. A referência a Romanos 5 é aplicada aqui de modo bastante perverso; é verdade que Adão é considerado responsável pelo primeiro pecado, mas isso certamente não remove o papel de Eva e de modo algum contradiz o que está sendo afirmado em 1Timóteo. Por último, a interpretação de Gálatas 3.28 está simplesmente errada. Paulo não disse que o pecado havia sido derrotado de tal modo a abolir qualquer distinção entre homens e mulheres; não é disso que trata Gálatas 3.28. Tudo que ele disse foi que, em Cristo, toda a raça humana tem um Salvador comum, de modo que nesse nível as distinções do tipo homem-mulher não importam.

Talvez o maior problema com a interpretação bíblica feminista seja que tantas mulheres tomam a crítica a ela como algo pessoal. Negar o tipo de coisa que The women’s Bible commentary [O comentário bíblico das mulheres] está afirmando muitas vezes é entendido como um ataque às mulheres como tais, o que não é verdade. Infelizmente, não há como negar que a teologia feminista muitas vezes envolve um comprometimento emocional por parte dos que a praticam, o que está ausente em outros tipos de teologia. Isso é uma pena, pois dificulta qualquer tipo de crítica e expõe a igreja ao perigo de que uma posição teológica falsa seja aceita simplesmente porque não fazê-lo ofenderia metade de seus membros. Talvez nunca antes na história da igreja a interpretação da Bíblia esteve exposta a um perigo tão sutil e onipresente como esse.

Conclusão

É necessário realçar que os métodos de interpretar a Bíblia esboçados acima ainda são experimentais e somente parcialmente aceitos em círculos acadêmicos. Nas igrejas, há normalmente uma suspeita ainda maior quanto a eles, embora a hermenêutica feminista possa estar fazendo um avanço maior no momento. É bastante provável que outros tipos de interpretação surgirão nessa ampla categoria social, à medida que novas questões aparecerem. Já há sinais de que logo poderemos estar diante de uma teologia ecológica, por exemplo, que em certos aspectos pode não estar muito longe do panteísmo. Além disso, questões que têm sido proeminentes em anos recentes podem desaparecer. A teologia da libertação pode não sobreviver por muito tempo ao fim do marxismo como ideologia política, e a teologia feminista pode acabar demonstrando ser igualmente instável a longo prazo. No momento, simplesmente não sabemos o que acontecerá. Podemos relatar somente o que foi falado e feito nos últimos anos e aguardar o que o futuro nos reserva.

Trecho extraído da obra “História da Interpretação Bíblica“, de Gerald Bray, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2017, pp. 525-530. Traduzido por Daniel Kroker. Publicado com permissão.

Gerald Bray é professor de Teologia da Beeson Divinity School, da Universidade de Samford, de Birmingham (Alabama, EUA). É o editor responsável pela Série Teologia Cristã da Editora Cultura Cristã, e é um teólogo respeitado internacionalmente, reconhecido pelo pensamento claro e pela lógica incisiva. Seus muitos livros incluem Quem é Jesus (Shedd Publicações) e A doutrina de Deus (Editora Cultura Cristã).
O passado e o presente da interpretação bíblica numa obra singular!

Gerald Bray inicia a obra com os conceitos básicos da interpretação bíblica que se mantiveram constantes na igreja ao longo das diferentes eras: revelação divina, natureza do cânon, relação do texto bíblico com a vida das igrejas cristãs e tensões permanentes próprias da interpretação bíblica. Nas três seções seguintes, a primeira examina o período que vai da igreja antiga à Reforma, a qual marca o início da moderna interpretação histórico-crítica; a segunda trata do desenvolvimento dessa interpretação histórico-crítica moderna desde o fim do século 17 até o 20; e a terceira examina as tendências atuais na interpretação bíblica que procuram oferecer alternativas à escola da crítica histórica, a qual domina o cenário atual.

Publicado por Vida Nova.

2 Comments

  1. Fabrício de Marque disse:

    Excelente reflexão!

  2. Valdeildson Monteiro disse:

    Excelente!

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