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Foto na pixabay

O céu reina sobre tudo. Pense nesta verdade como uma macroperspectiva: um panorama geral, aquele que veríamos através de uma lente grande-angular ou de um telescópio. Isso deve nos dar coragem e consolo em meio ao tumulto em nosso mundo.

Mas é igualmente reconfortante e encorajador perceber que o céu também reina sobre os detalhes de nossa vida individual. Esta é a microperspectiva: a visão através de uma lente zoom ou mesmo de um microscópio. Sim, Deus governa os grandes acontecimentos nos palcos das nações e do mundo. Mas ele também governa as minúcias de nossa vida pessoal, o que jamais apareceria no noticiário noturno.

O capítulo 1 do livro de Daniel nos fornece uma tela viva para observarmos esse aspecto pessoal do cuidado e do controle de Deus — a visão micro. Somos informados de que, ao levar o povo de Judá cativo, Nabucodonosor deu ordens para “trazer alguns dos israelitas da família real e da nobreza — homens jovens, sem defeitos físicos, de boa aparência, aptos para instrução em toda a sabedoria, instruídos, perspicazes, e com capacidade para servir no palácio do rei” (1.3-4). Seu plano era colocar esses jovens em um programa intensivo de treinamento por três anos, uma espécie de MBA em todas as áreas da Babilônia. Enquanto eram instruídos, ele lhes forneceria tudo o que precisavam para seu sustento diário, inclusive a melhor comida e bebida possíveis.

Era uma manobra manipuladora clássica, que jogava com as mentes e os apetites de jovens impetuosos e ambiciosos. O rei Nabucodonosor mostraria interesse por esses jovens de elite da classe aristocrática, oferecendo-lhes uma carreira promissora na Babilônia, ao mesmo tempo que progressivamente minava a lealdade deles ao lar, à família, à cultura e à sua herança religiosa. Ao dobrá-los com bons vinhos, regalias reais e privilégios de um círculo íntimo imaginário, ele poderia recrutar os talentos desses jovens para seus propósitos pessoais, enquanto os fazia se sentirem obrigados e honrados em servir o rei que lhes havia concedido tantas honrarias.

Vemos aqui um rei no auge de sua astúcia e sua arrogância; um rei que parece ter controle absoluto; um rei que acredita ter esse grupo de jovens israelitas exatamente onde ele queria, ou seja, sem outra escolha a não ser fazer o que ele diz.

Mas não. Quando foi “convidado” (leia-se, coagido) a ir ao palácio mais poderoso que o mundo conhecia, Daniel ainda sabia quem era o verdadeiro governante do mundo, aquele a quem respondia e a quem devia sua lealdade final. Como resultado, apesar das críticas que ele sabia que a sua resistência iria gerar, Daniel “decidiu não se contaminar com a comida do rei nem com o vinho que ele bebia” (Dn 1.8).[1]

Observe que Daniel não fez um escândalo por causa disso. (Quando se acredita que o céu reina, não há necessidade de perder as estribeiras diante dos obstáculos deste mundo.) Em vez disso, ele foi diretamente — e com respeito — até o “chefe dos oficiais” (a pessoa responsável) e “pediu permissão” para não seguir a dieta prescrita, pois contrariava a prática sagrada de sua fé (1.8).

Observe cuidadosamente o que a Bíblia diz a seguir:

Deus concedeu a Daniel bondade e compaixão da parte do chefe dos oficiais (Daniel 1.9).

Você pode escrever “o céu reina” ao lado desse versículo. Outra “visão da perspectiva de Deus”.

Agora me diga quem fez com que Daniel encontrasse favor diante desse chefe dos oficiais. Foi Deus. Mesmo aqui, nessa espécie de “programa de desenvolvimento”, que todos os líderes sabiam que tinha como objetivo reprogramar esses hebreus atrasados e incutir neles o pensamento progressista da Babilônia, Deus interveio em nome de Daniel e comoveu o coração de seus manipuladores pagãos.

Assim, quando Daniel apelou para o “encarregado” (1.11) diretamente responsável pelos hebreus recrutados e sugeriu um experimento, ou seja, que ele e seus três amigos fossem por dez dias alimentados apenas com legumes e água, o homem concordou. Por quê? Porque Deus viera antes deles. Abrindo caminho para eles. Protegendo-os. Provendo para eles.

“O coração de um rei é como um canal de água nas mãos do Senhor”, diz a Bíblia (Pv 21.1), assim como é o coração de todos aqueles que detêm autoridade, mesmo que não reconheçam a Deus. Mesmo que odeiem e resistam a Deus. Mesmo que adorem outros deuses, o nosso Deus ainda “dirige” o coração deles “para onde ele quer”. Não existe um só rei, líder ou presidente, nem mesmo seu chefe no trabalho, cujo coração Deus não possa tocar e transformar; não há uma só pessoa que Deus não possa fazer com que cumpra sua vontade.

Porque o céu reina.

Entretanto, como se o favor de uma administração ímpia já não fosse prova suficiente da presença de Deus dirigindo a vida de Daniel e de seus amigos, a Bíblia diz que o Senhor também “concedeu a estes quatro jovens conhecimento e entendimento em todo tipo de literatura e sabedoria” (Dn 1.17).

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Quem lhes concedeu essas coisas? Foi Deus.

Deus sabia que em breve esses jovens deparariam com situações em que precisariam dessas habilidades, especialmente da sabedoria fora do comum de Daniel para compreender “todo tipo de visões e sonhos” (1.17). E assim, com base no conhecimento que tinha tanto das preocupações pessoais desses jovens (o cenário micro) quanto de tudo o mais que estava orquestrando no mundo (o cenário macro), Deus fez provisão para eles, concedendo-lhes tudo o que precisavam, no momento certo, na medida exata, e até mesmo antes de que precisassem.

Ora, esses quatro jovens (Daniel, Hananias, Misael e Azarias) certamente não foram os únicos a participarem do programa de treinamento babilônico para jovens hebreus da elite. Eles são apenas os quatro mencionados na Bíblia. Mas, a partir do que lemos, aprendemos que Deus estava atento a eles como indivíduos e os estava capacitando exatamente com o que precisavam — o que não incluía a comida nem o vinho caro do rei! — mesmo em meio ao sofrimento por eles experimentado como vítimas de uma catástrofe nacional. O mesmo Deus que governa as nações e entregou Judá nas mãos do rei da Babilônia (cenário macro) também operava nos detalhes da vida do seu povo (cenário micro).

E o mesmo é verdade para você. Deus sempre lhe dará o que você precisa de maneiras que podem não ficar claras ou mesmo visíveis aos seus olhos no momento. Mas ele está preparando você para oportunidades e circunstâncias que estão à sua frente, desafios que podem ser mais difíceis do que os que está enfrentando no presente momento, coisas que você provavelmente não prevê e talvez nem seja capaz de imaginar.

Deus, e somente Deus, sabe com precisão o que vai acontecer com sua saúde, sua família, suas finanças, seu trabalho, seu país, neste mundo. Ele sabe de todas as coisas.

Deus é aquele que sabe. Aquele que governa. Aquele que se importa. Portanto, a obra dele em sua vida, embora possa desafiar a lógica convencional e até ser dolorosa, e talvez confusa, é de fato uma obra de provisão, de proteção e uma obra preparatória. Ele está colocando você em posição de mostrar a glória dele.

O seu trabalho e o meu é simplesmente confiar em Deus. E podemos confiar nele por causa de quem ele é. Não importa qual seja a situação, estamos cobertos por seu amor e seu cuidado vigilantes e podemos ter certeza de que Deus sabe a melhor maneira de nos guiar em meio a tudo isso. Mesmo quando aquilo que estamos passando parecer injusto e doloroso


[1] Os intérpretes debatem exatamente como a comida e o vinho contaminariam Daniel. Embora muitos tenham assumido que a comida não era kosher (ou seja, não seguia as instruções da lei mosaica), não havia restrições mosaicas ao consumo de vinho. De acordo com Daniel 10.3, ele recusou a comida real apenas temporariamente, então, não parece ser uma questão kosher. Alguns comentaristas sugerem que Daniel e seus amigos procuravam não depender do rei. Ao não comerem “a comida do rei” (1.8,13,15), eles estavam expressando dependência e devoção ao Senhor para seu sustento e sucesso.

 

Trecho extraído e adaptado da obra “O céu reina“, de Nancy DeMoss Wolgemuth, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2024, p. 55-59. Traduzido por Marisa k. A. de Siqueira Lopes. Publicado no site Cruciforme com permissão.

É conferencista e apresentadora dos programas de rádio Revive our Hearts e Seeking Him transmitidos diariamente nos Estados Unidos. É autora de vários livros, entre eles: Buscando a Deus; Mulher: sua verdadeira feminilidade; Mulher: dez elementos da feminilidade; Escolhendo o perdão; Mentiras em que as mulheres acreditam e a verdade que as liberta; Mentiras em que as garotas acreditam e a verdade que as liberta; Mulher cristã: repensando o papel da mulher à luz da Bíblia. Publicados por Shedd Publicações e Vida Nova.
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Com que facilidade três palavrinhas podem encher nossa vida de ansiedade e de medo! Mas para cada uma dessas preocupações, existe uma resposta de três palavras: O CÉU REINA. A Bíblia diz que Deus está envolvido de forma pessoal e intencional em tudo o que acontece neste mundo. Ele reina sobre cada lágrima, cada cicatriz, cada crise, cada conflito. Quando passamos por angústias, podemos encontrar refúgio olhando para cima e deixando que a paz de Deus reine em nosso coração. Usando como guia o livro de Daniel, Nancy DeMoss Wolgemuth revela como enxergar o mundo pelas lentes de que o céu reina nos protege do pânico e renova nossa esperança.

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