Você ainda não encontrou o que está procurando? C. S. Lewis, Bono e o argumento do desejo | Ted Wright

A Bíblia e o vestido azul e preto (ou seria branco e dourado?) | Lucas Sabatier
03/mar/2015
O governo é um resultado da Queda? | Richard Mouw
09/mar/2015

Feliz ou infelizmente, eu era criança nos anos 80 e naquela época uma nova banda de rock entrou em cena e mudou a música pop tanto na Grã-Bretanha, como nos Estados Unidos e, depois, no mundo. Eu me apaixonei pelo som deles logo que o ouvi. O estilo era único e as letras tinham uma mensagem real. Suas músicas soavam muito mais profundas do que as canções pop tocadas no rádio. A banda era o U2, de Dublin, Irlanda.

Em Maio de 1987, a banda lançou seu 5º álbum de estúdio intitulado “The Joshua Tree”. A segunda faixa nesse álbum é uma música “evangeliquesca” que o produtor Danny Lanois incentivou Bono a escrever [1]. A música é “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” (“Eu Ainda Não Encontrei o que Estou Procurando”, em inglês). Ela foi aclamada por muitos críticos e publicações como uma das melhores canções de todos os tempos. [2]

O que torna essa música tão única e eterna? Claro que é a excelente voz de Bono, o contrabaixo sereno de Adam Clayton e os riffs de guitarra de Edge, mas eu acredito que há algo a mais, acredito que seja algo mais profundo. A música borda uma verdade que está incorporada em todas as pessoas – um anseio profundo e um desejo por algo que o mundo em que estamos não pode satisfazer totalmente. Aqui está o segundo verso:

Eu beijei lábios de mel

Senti a cura nas pontas dos dedos dela

E queimou como fogo

(Eu estava) queimando dentro dela

 Eu falei com a língua dos anjos

Eu segurei a mão de um demônio

Estava quente à noite

Eu estava frio como uma pedra

Mas eu ainda não encontrei

O que eu estou procurando

Mas eu ainda não encontrei

O que eu estou procurando

A música foi escrita no estilo de uma lamentação gospel, que tem raízes nos Salmos, no livro de Lamentações de Jeremias e, depois, em Spirituals afro-americanos. Então, qual é a lamentação do cantor?

Ele se lamenta de que não importa o que ele tente ou faça, a satisfação final não é encontrada nesse mundo. Sua satisfação deve vir de algum outro lugar. Ele foi feito para outra coisa, para outro lugar ou, talvez, para outro alguém. Ele é um estrangeiro e um peregrino nesta terra, “apenas de passagem”.

Aqui “Edge”, bem mais jovem, explica a origem da música e Bono canta com um coro da igreja evangélica em Harlem, NY.

Em seu livro Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis oferece um argumento para a existência de Deus com base em nossas insatisfações, como também em nossos desejos mais profundos, o que é bastante semelhante à letra da música do U2. Eu diria até que a ideia central é praticamente a mesma.

O argumento de Lewis é assim:

“Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um patinho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o desejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” [3]

O filósofo Peter Kreeft nos fez um grande serviço reformulado o Argumento do Desejo, criado por Lewis, em um silogismo que pode ser um pouco mais fácil de seguir.

  1. Todo o desejo natural inato corresponde a um objeto real que pode satisfazer tal desejo.
  1. Mas existe em nós um desejo que nada no tempo, nada na terra e nenhuma criatura podem satisfazer.
  1. Portanto, deve existir algo que pode satisfazer esse desejo, que seja mais que o tempo, a terra e as criaturas.
  1. É isto o que as pessoas chamam de “Deus” e “a vida com Deus para sempre.” [4]

Premissa nº 1 – Todo desejo natural inato corresponde a um objeto real que pode satisfazer tal desejo.

A chave aqui é que cada desejo natural possui uma realidade correspondente. A implicação é que há dois tipos de desejos distintos – desejos naturais e desejos artificiais. Todos possuem desejos naturais, como o desejo por água, comida, sono, amizade (companheirismo), etc., mas também temos desejos por coisas que são artificiais, ou condicionadas pela sociedade – como o desejo de ser famoso, ou o desejo de possuir superpoderes (como um dos “Vingadores”), ou o desejo de ter uma Ferrari.

No entanto, com os desejos artificiais, nós não reconhecemos uma condição chamada “Ferrariedade” (ou seja, o desejo por Ferrari) que corresponda a algum desejo natural, como o desejo por água (sede) ou por comida (fome).

Premissa nº 2 – Mas existe em nós um desejo que nada no tempo, nada na terra e nenhuma criatura podem satisfazer.

Esta premissa é existencialmente verdadeira e, ou alguém a sente ou não. Ela não pode ser forçada. Pode-se salientar, no entanto, que mesmo que alguém não sinta o desejo por Deus, isso não significa que o desejo não exista por estar enterrado sob as preocupações da vida.

O romancista Walker Percy, falando sobre “a busca”, em seu romance clássico “O Frequentador de Cinema” (The Moviegoer – 1961), aborda essa ideia:

 “‘A busca’ é o que qualquer um faria se não estivesse preso na correria do seu dia-a-dia. Tornar-se consciente da possibilidade da busca é estar no caminho certo. Não estar em busca de algo é estar em desespero.”

Alguma coisa está faltando, então nos desesperamos. E, de fato, como Thoreau escreve: “… a maioria dos homens vive uma vida de desespero silencioso” (Desobediência Civil e outros Ensaios) ou, como o mítico grego Sísifo, “sentimos” a futilidade e a penosidade infindável do trabalho e da vida e percebemos que deve haver “algo mais”.

Leia também  Dois Reinos, um Deus | Keith Mathison

Se Deus é a fonte de alegria e fraternidade, então Ele, e somente Ele (e a vida com Ele para sempre) irão satisfazer o coração de todas as pessoas. Essa verdade tem sido articulada por muitas vozes diferentes ao longo da história.

“[Deus] também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” – Rei Salomão (Eclesiastes 3:11)

“Tu, ó Senhor nos fizeste para Ti, e nossos corações estarão inquietos até encontrarem descanso em Ti” – Agostinho (As Confissões)

“Há um vazio do tamanho de Deus no coração de cada homem, que não pode ser preenchido por qualquer coisa criada, mas somente por Deus, o Criador, que se fez conhecido através de Jesus.” – Blaise Pascal (Pensamentos)

“Não estar em busca de algo é estar em desespero” – Walker Percy (O Espectador)

“Eu ainda não encontrei o que estou procurando” – U2 (Bono)

Peter Kreeft resume de forma brilhante a 2ª premissa:

“A segunda premissa exige apenas uma introspecção honesta. Se alguém negar esta realidade e disser: ‘Sou perfeitamente feliz, brincando com bolinhos de lama ou andando em carros esportivos, ou tendo dinheiro, sexo, ou poder’, nós só podemos perguntar a essa pessoa: ‘Você é perfeitamente feliz só com essas coisas mesmo?’ Mas o máximo que podemos fazer é perguntar, jamais poderíamos obrigá-la a pensar diferente… Até mesmo o ateísta Jean-Paul Sartre admitiu que ‘chega uma hora em que a pessoa pergunta – até mesmo Shakespeare ou Beethoven –: ‘Será que isso é tudo o que existe?’.”[5]

Premissa nº 3 – Portanto, deve existir algo que pode satisfazer esse desejo, que seja mais que o tempo, a terra e as criaturas.

Premissa nº 4 – É isto o que as pessoas chamam de “Deus” e “a vida com Deus para sempre.”

É certo que a conclusão desse argumento não é um caso “hermético” para o Deus da Bíblia, mas é certamente um começo. Quando o Argumento do Desejo é colocado ao lado de outros argumentos a favor da existência de Deus, como o argumento cosmológico e o argumento teleológico, eu creio que ele se torna bastante convincente e digno de atenção.

Kreeft diz: “O que isso prova é uma incógnita X cuja direção, por assim dizer, é conhecida. Este X é mais: Mais beleza, mais desejabilidade, mais grandiosidade, mais alegria.” [6]

“Aparentemente, então, a nossa nostalgia de toda uma vida, o desejo de sermos reunificados com alguma coisa no universo da qual nos sentimos cortados hoje, e de estar do lado de dentro de alguma porta para a qual ficamos sempre olhando do lado de fora, não é nenhuma fantasia neurótica; pelo contrário, é o indício mais verdadeiro da nossa situação real.” – C. S. Lewis (O Peso de Glória)

Verdade, Bondade e Beleza

Pode ser que onde mais sentimos o anseio não realizado seja na beleza e em nosso desejo de infinitas beleza, verdade e bondade[7], como Kreeft explica de forma brilhante:

“Há três coisas que nunca irão morrer: verdade, bondade e beleza. Estas são as três coisas que precisamos, e precisamos absolutamente, e sabemos que precisamos absolutamente. Nossas mentes querem não apenas um pouco de verdade e um pouco de falsidade, mas toda a verdade sem limite. Nossas vontades não querem apenas algo bom e algo mau, mas tudo de bom sem limite. Nossos desejos, nossa imaginação, nossos sentimentos ou nossos corações apenas querem não apenas um pouco de beleza e um pouco de feiura, mas toda a beleza sem limites.”

Pois estas são as três coisas com que nunca ficaremos entediados, e nunca ficaremos por toda a eternidade, porque elas são três atributos de Deus e, portanto, toda a criação de Deus: três princípios transcendentais ou absolutamente universais de toda a realidade. Verdade, bondade e beleza são ‘vislumbres da luz de Deus’ aqui nas ‘Sombras’. O lugar delas é além.” [8]

O cristianismo ensina que a única maneira de realmente conhecer a Deus é através de Jesus Cristo, que veio para revelar quem Ele realmente é.

“Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17: 3, NVI)

___________________

[1] http://en.wikipedia.org/wiki/I_Still_Haven%27t_Found_What_I%27m_Looking_For (acessado em 2 de setembro de 2014).

[2] Ibid.

[3] C.S. Lewis, Mere Christianity (Cristianismo Puro e Simples), Book III, chap. 10

[4] Peter Kreeft & Ronald Tacelli, Handbook of Christian Apologetics (Manual de Defesa da Fé. Ed. Central Gospel) (Downers Grove, IL, 1994), pp. 78-81, also see his “The Argument from Desire” on http://peterkreeft.com/topics/desire.htm (acessado em 1 de janeiro de 2006).

[5] Ibid.

[6] Kreeft, Op cit.

[7] Em sua obra autobiográfica, Surprised by Joy (Surpreendido pela Alegria), C.S. Lewis explorou suas próprias experiências com aquilo que chamou de  “o aguilhão, a pontada, o anseio inconsolável” acerca dos quais ele tinha certeza que todos os seres humanos sentiam.

[8] Peter Kreeft, “Lewis’s Philosophy of Truth, Goodness and Beauty,” in David Baggett, Gary R. Habermas and Jerry Walls, Editors, C. S. Lewis as Philosopher: Truth, Goodness and Beauty (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2008), 23-36.

Traduzido por Ana Carolina Marafioti e Filipe Espósito e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original aqui.

Ted W. Wright é o Diretor Executivo do Ministério Cross Examined. Suas áreas de especialidades são arqueologia bíblica, apologética paleontologia, geologia e filosofia. Graduou-se pelo Cobb Institute of Archaeology no Mississippi State University e obteve seu mestrado em apologética pelo Southern Evangelical Seminary.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: