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1. Exemplos do Antigo Testamento

A Bíblia traz vários exemplos de pessoas fiéis a Deus que influenciaram governos seculares.[1]

Um deles é Daniel, profeta judeu que exerceu forte influência sobre o governo na Babilônia. Daniel disse a Nabucodonosor: “Portanto, aceita o meu conselho, ó rei: Abandona teus pecados, praticando a justiça, e renuncia às tuas maldades, usando de misericórdia com os pobres, se quiseres prolongar a tua tranquilidade” (Dn 4.27).

Sua abordagem é corajosa e inequívoca. É o oposto da abordagem multicultural de hoje, que talvez dissesse algo como: “Ó rei Nabucodonosor, sou profeta judeu, mas não ousaria impor meus padrões morais judaicos em seu reino babilônico. Consulte seus astrônomos e adivinhos! Eles o guiarão em suas próprias tradições. Siga seu coração! Não cabe a mim lhe falar do que é certo ou errado”.

Antes, Daniel disse com toda a ousadia: “Abandona teus pecados, praticando a justiça, e renuncia às tuas maldades, usando de misericórdia com os pobres”.

Será que ele especificou em mais detalhes quais “pecados” e “iniquidades” exigiam mudanças no reinado de Nabucodonosor? Disse ao governante mais poderoso do mundo de que maneira o Deus de todo o universo desejava que ele agisse como rei? O contexto sugere que sim.

Nessa época, Daniel ocupava um cargo elevado na corte de Nabucodonosor. Era “governador de toda a província da Babilônia” e “chefe principal de todos os sábios da Babilônia” (Dn 2.48). Estava, com frequência, “na corte real” (v. 49). Ao que parece, portanto, Daniel exercia um papel importante de conselheiro na corte do rei. É razoável supor, diante disso, que sua declaração resumida a respeito dos “pecados”, das “maldades” e do uso de “misericórdia com os pobres” (Dn 4.27) tenha sido seguida de uma conversa mais demorada, na qual especificou políticas e ações do rei consideradas boas ou más aos olhos de Deus.

Daniel é um exemplo veterotestamentário de alguém fiel a Deus que exerceu influência expressiva não apenas sobre um governo civil, mas sobre um governo debaixo da autoridade de um rei pagão.

O conselho de Jeremias aos exilados judeus na Babilônia também corrobora a ideia de que pessoas fiéis a Deus podem influenciar leis e governos. Jeremias disse aos exilados: “Empenhai-vos pela prosperidade da cidade, para onde vos exilei, e orai ao Senhor em favor dela; porque a prosperidade dela será a vossa prosperidade” (Jr 29.7). Para que pessoas fiéis a Deus promovam o bem de uma sociedade pagã, é necessário que também tragam melhorias a seu governo (como Daniel fez). A verdadeira “prosperidade” de uma cidade é promovida por leis e políticas governamentais coerentes com os ensinamentos de Deus na Bíblia, não por leis e políticas contrárias ao ensino bíblico.

Outras pessoas fiéis a Deus ocuparam cargos de influência no governo de nações não judaicas. José estava abaixo somente do faraó, o rei do Egito, e exercia forte influência sobre as decisões do faraó (cf. Gn 41.37-45; 42.6; 45.8,9,26). Posteriormente, Moisés compareceu diante do faraó com toda a ousadia e exigiu que o povo de Israel fosse liberto. Disse: “Assim diz o Senhor: Deixa o meu povo ir” (Êx 8.1), Neemias era “copeiro do rei” Artaxerxes (Ne 1.11), da Pérsia, cargo de grande responsabilidade.[2] Mordecai era “o segundo na hierarquia, depois do rei Xerxes” (Et 10.3; cf. também 9.4). A rainha Ester também exerceu influência considerável sobre as decisões do rei Xerxes (cf. Et 5.1-8; 7.1-6; 8.3-13; 9.12-15,29-32).

Além disso, muitas passagens nos textos dos profetas do Antigo Testamento tratam dos pecados de nações estrangeiras ao redor de Israel: cf. Isaías 13—23; Jeremias 46—51; Ezequiel 25—32; Amós 1—2; Obadias (dirigido a Edom); Jonas (enviado a Nínive); Naum (dirigido a Nínive); Habacuque 2; Sofonias 2. Esses profetas falaram a outras nações porque o Deus revelado na Bíblia é Deus de todos os povos e de todas as nações da terra. Ele é seu Criador e, um dia, eles comparecerão diante dele para ser julgados. Portanto, os padrões morais de Deus revelados na Bíblia são os padrões com base nos quais as pessoas terão de prestar contas a Deus. Não se referem apenas ao modo como as pessoas se conduzem no casamento e na família, na vizinhança e na escola, no trabalho e nos negócios. Dizem respeito também ao modo como se conduzem em cargos do governo. As pessoas fiéis a Deus têm a responsabilidade de dar testemunho dos padrões morais da Bíblia com base nos quais todos terão de prestar contas, inclusive quem ocupa cargos públicos.

2. Exemplos do Novo Testamento

João Batista é um exemplo neotestamentário de influência sobre o governo. Em sua época, o governante da Galileia (de 4 a.C. a 39 d.C.) era Herodes Antipas, “tetrarca” nomeado pelo imperador romano e sujeito à autoridade do Império Romano. Herodes não era israelita, mas idumeu (de Edom, uma nação vizinha). Conforme o Evangelho de Mateus, João Batista havia repreendido Herodes, o tetrarca, por um pecado específico em sua vida pessoal: “Pois Herodes havia prendido e amarrado João, colocando-o no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe. Pois João lhe dizia: Não te é permitido possuí-la” (Mt 14.3,4).

O Evangelho de Lucas traz mais detalhes:

[João Batista] anunciava o evangelho ao povo fazendo muitas outras advertências. Mas, tendo sido repreendido por João por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todos os males que fizera, o governante Herodes ainda acrescentou a todos eles o de prender João no cárcere (Lc 3.18-20).

Sem dúvida, “todos os males que [Herodes] fizera” incluíam muitos atos perversos como governante no Império Romano. João Batista o repreendeu por todos eles. Falou com ousadia a funcionários públicos do império sobre como suas políticas governamentais eram moralmente certas ou erradas. João seguiu, desse modo, os passos de Daniel e de vários profetas do Antigo Testamento (cf. citação anterior). De acordo com o Novo Testamento, as atitudes de João Batista foram atitudes de “um homem justo e santo” (Mc 6.20). Ele é excelente exemplo de uma pessoa fiel a Deus que exerceu influência expressiva sobre as políticas de um governo (embora isso tenha lhe custado a própria vida; cf. Mc 6.21-29).

Outro exemplo é o apóstolo Paulo. Quando Paulo estava na prisão em Cesareia, foi julgado perante Félix, o governador romano. Eis o que aconteceu:

Alguns dias depois, Félix chegou com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar Paulo e ouviu-o acerca da fé em Cristo Jesus. E, discorrendo ele sobre a justiça, sobre o domínio próprio e sobre o juízo vindouro, Félix ficou com medo e respondeu: Basta por enquanto, retira-te! Eu te chamarei quando houver oportunidade (At 24.24,25).

Embora Lucas não forneça mais detalhes, o fato de Félix ter ficado “com medo” e de Paulo ter discorrido “sobre a justiça” e “sobre o juízo vindouro” indica que Paulo lhe falou acerca de padrões morais de certo e errado e de como Félix, governador do Império Romano, tinha obrigação de viver conforme os padrões estabelecidos por Deus. Sem dúvida, Paulo disse a Félix que ele teria de prestar contas de suas ações no “juízo vindouro”, daí o fato de o governador ter ficado “com medo”. O termo “discorrendo” traduz a palavra grega dialegomai, usada por Lucas para indicar um diálogo ou discussão. Não é difícil imaginar Félix perguntando a Paulo: “E quanto a esta decisão que preciso tomar? O que me diz desse posicionamento político? E deste parecer oficial?”. Seria uma restrição artificial do significado do texto supor que Paulo conversou com Félix somente sobre sua vida “particular”, e não sobre suas ações como governador romano. Paulo é, portanto, excelente exemplo da tentativa de exercer influência cristã expressiva sobre o governo civil.

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Logo, se nós, como cristãos, procuramos exercer influência cristã expressiva sobre o governo civil e sobre os líderes governamentais, temos vários bons exemplos na narrativa bíblica, entre eles José, Moisés, Daniel, Neemias, Mordecai e Ester. Também podemos tomar como exemplo as profecias escritas de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Amós, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque e Sofonias. No Novo Testamento, temos os exemplos corajosos de João Batista e do apóstolo Paulo. Essas influências sobre governos não são casos de pouca importância em trechos obscuros da Bíblia. Antes, estão presentes na história do Antigo Testamento, desde Gênesis até Ester (o último livro histórico), nos textos canônicos dos profetas de Israel, desde Isaías até Sofonias, e no Novo Testamento, tanto nos Evangelhos como nas Epístolas. Esses são apenas os casos em que servos de Deus exerceram influência expressiva sobre reis pagãos, que não tinham compromisso algum com o Deus de Israel no Antigo Testamento ou com Jesus na época no Novo Testamento. Se acrescentássemos a essa lista os muitos relatos de profetas do Antigo Testamento que aconselharam, incentivaram e repreenderam os reis bons e maus de Israel, teríamos de incluir os relatos de todos os reis e os escritos de todos os profetas, ou seja, quase todos os livros do Antigo Testamento. Poderíamos acrescentar, ainda, várias passagens de Salmos e de Provérbios que falam de bons e maus governantes. Exercer influência positiva sobre governos com base na sabedoria das palavras de Deus é um tema presente em toda a Bíblia.

3. Romanos 13 e 1Pedro 2

Além desses exemplos, a mera existência de passagens bíblicas específicas que ensinam a respeito do governo é argumento em favor da influência cristã expressiva sobre o governo. Por que Deus colocou na Bíblia Romanos 13.1-7 e 1Pedro 2.13,14 e outras passagens relacionadas (por exemplo, em Salmos e Provérbios)? Estão ali simplesmente por uma questão de curiosidade intelectual, para cristãos as lerem em suas devoções particulares, mas jamais as usarem para dizer a governantes como Deus vê seus papéis e responsabilidades? É intenção de Deus que esses textos sejam ocultados dos governantes e mantidos em segredo pelos cristãos que os leem e que lamentam em silêncio sobre “o quanto o governo se desviou dos propósitos de Deus”?

Sem dúvida, Deus colocou essas passagens na Bíblia não apenas para informar os cristãos sobre como eles devem se relacionar com o governo civil, mas também para que pessoas com responsabilidades governamentais saibam o que o próprio Deus espera delas. Pode-se dizer o mesmo de outras passagens bíblicas que nos instruem a respeito dos padrões morais de Deus, da natureza e do propósito da criação dos seres humanos à imagem de Deus, dos propósitos de Deus para a terra e dos princípios referentes a bons e maus governos. Todos esses ensinamentos são relevantes para aqueles que ocupam cargos no governo, e devemos falar a seu respeito e transmiti-los sempre que tivermos oportunidade.

4. Cidadãos de uma democracia têm a responsabilidade de entender o ensino bíblico

Outro argumento em favor da influência cristã expressiva sobre o governo se aplica a qualquer um que viva numa democracia, pois, nesse sistema, uma parte considerável do poder de governo é confiada aos cidadãos em geral por meio das eleições. Ter a possibilidade de votar significa ter uma parcela do poder de governar. Logo, todos os cidadãos com idade para votar têm a responsabilidade diante de Deus de saber o que ele espera do governo civil e de conhecer os padrões morais e legais que, de acordo com ele, o governo deve seguir. De que maneira, porém, os cidadãos aprendem sobre o tipo de governo que Deus quer? Isso só acontece quando as igrejas ensinam o que a Bíblia diz sobre governo e política.

Sei que há diferenças de opinião entre os pastores quanto ao nível de detalhamento do ensino acerca de questões políticas específicas (por exemplo, se tratarão de aborto, eutanásia, auxílio aos pobres, Forças Armadas e defesa nacional, uso e cuidado do meio ambiente ou natureza do casamento). Sem dúvida, porém, é responsabilidade dos pastores ensinar algumas dessas questões específicas de forma que não se atenham apenas à declaração: “Os cristãos devem votar de modo consciente”.

Afinal, quem mais ensinará aos cristãos exatamente de que maneira a Bíblia se aplica a questões políticas específicas? Os pastores considerariam correto orientar os membros de suas igrejas apenas por alto a respeito de outras áreas da vida? Será que nos limitaríamos a dizer: “Vocês têm responsabilidade de educar seus filhos de acordo com princípios cristãos”, sem oferecer explicação alguma a respeito desses princípios? Consideraríamos correto dizer a pessoas no mundo dos negócios: “Vocês têm responsabilidade de atuar nessa área conforme os princípios cristãos”, sem entrar em detalhes sobre esses princípios? Claro que não. Os pastores são responsáveis por apresentar ensino bíblico criterioso e explicar exatamente de que maneira os ensinamentos da Bíblia se aplicam às diversas situações específicas da vida, o que certamente deve incluir instrução a respeito de questões de governo e política.


[1] Muitas dessas passagens já foram mencionadas na p. 45, porém sem comentários mais detalhados em relação à segunda visão, de acordo com a qual o governo deve excluir a religião.

[2] “A função de copeiro do rei era um cargo elevado e quem o ocupava tinha acesso frequente ao rei”, ESV Study Bible, Wheaton: Crossway, 2008, p. 825.

Trecho extraído da obra “Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer“, de Wayne Grudem, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2014, p. 81-87. Traduzido por Susana Klassen. Publicado no site Cruciforme com permissão.

Wayne Grudem é professor pesquisador de Teologia e Bíblia pelo Phoenix Seminary, no Arizona. Foi professor titular do departamento de Teologia Bíblica e Sistemática da Trinity Evangelical Divinity School durante vinte anos. É graduado em Harvard, mestre em Teologia pelo Westminster Theological Seminary e doutor pela Universidade de Cambridge. É autor de Teologia sistemática, Entenda a fé cristã, Política segundo a Bíblia, Economia e política na cosmovisão cristã, Comentário bíblico de 1Pedro e A pobreza das nações, publicados por Vida Nova.
As igrejas devem exercer alguma influência na política? Pastores devem pregar sobre temas políticos? Existe somente um posicionamento “cristão” em relação a questões políticas? A Bíblia traz algum ensinamento a respeito de como as pessoas devem votar?

Se já fez a si mesmo ao menos uma dessas perguntas, não pode deixar de ler este livro! Nele o autor lança mão de três tipos de argumentos para orientar uma visão política de acordo com a Bíblia: argumentos baseados em declarações bíblicas explícitas; argumentos baseados em princípios bíblicos mais amplos e argumentos baseados em uma avaliação de fatos relevantes no mundo de hoje.

Esta obra é uma edição parcial da que o autor publicou em inglês, pois muitos capítulos da obra original tratavam de questões específicas do contexto norte-americano. Sendo assim, fizemos uma seleção dos capítulos fundamentais para que os cristãos de língua portuguesa possam ter uma visão política segundo a Bíblia.

Publicado por Edições Vida Nova.

1 Comments

  1. Bryan disse:

    Pelo menos devemos estar sempre orando pela patria mesmo se acha que não tem outra forma para vc influenciar a politica alem do voto

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