
A tentação pela fama digital | Aaron Armstrong
13/jul/2026
O império da dúvida
“Je pense, donc je suis”. Esta afirmação de René Descartes é uma das mais famosas da história da filosofia ocidental. A tradução, “Penso, logo existo”, valoriza a dúvida como o caminho para o verdadeiro conhecimento. Quando duvidamos impiedosamente de tudo, descobrimos que há uma coisa da qual não podemos duvidar: o fato de estarmos pensando enquanto duvidamos. Assim, a dúvida é o caminho para a verdade e para a vida.
Com relação a nossa fé, alguns veem a dúvida como algo construtivo. George Macdonald escreve: “Um homem pode ser atormentado por dúvidas e, com isso, crescer na fé. As dúvidas são mensagens do Deus vivo para aqueles que são honestos. Elas são a primeira batida à nossa porta, trazendo coisas que ainda não são — mas precisam ser — compreendidas.”[1] A dúvida é um rito de passagem que se repete. Não há como evitá-la no caminho para a maturidade espiritual. Ela é algo profundamente normal. Como admite C. S. Lewis: “Agora que sou cristão, tenho momentos em que tudo isso me parece muito improvável… Essa rebelião do seu estado de ânimo contra o seu verdadeiro eu acontecerá de qualquer maneira.”[2]
Como cristão, muitas vezes luto contra a dúvida — dúvidas sobre a existência de Deus, sobre para onde irei quando morrer e sobre a singularidade de Jesus. E, no que se refere à minha vida cristã, a dúvida é uma das poucas coisas capazes de abalar a minha fé. Assim, embora eu me sinta um tanto consolado pelo fato de que as dúvidas são normais e potencialmente construtivas, elas ainda parecem o que Lewis chama de um “ataque” emocional contra a minha fé.
3 categorias da dúvida
Podemos dividir a dúvida em três categorias. Primeiro, há a dúvida factual ou filosófica, que se relaciona com questões históricas, evidências ou questões mais abstratas, como por exemplo, a existência de Deus ou o problema do mal. A segunda categoria, e a mais comum, é a dúvida emocional. Esse tipo de dúvida se expressa em perguntas recorrentes do tipo “e se…” ou “por que…”, mesmo depois das respostas dadas às questões terem sido claras. É frequentemente aqui que a minha dúvida se instala, concentrando-se na possibilidade de eu ter sido, de alguma forma, enganado. A última é a dúvida volitiva. Ela é essencialmente, um afastamento total de qualquer discussão teológica, filosófica ou potencialmente proveitosa. A pessoa que duvida sente-se interiormente amortecida e, devido a mágoas, exaustão ou raiva de Deus, carece de motivação para se dedicar à sua vida cristã. Às vezes, a dúvida evolui do plano filosófico para o emocional e, depois, para o volicional, caso não seja tratada em cada uma dessas etapas. Isto é, respostas insatisfatórias podem levar a questionamentos emocionais; e se as inquietações emocionais persistirem por muito tempo, a pessoa pode tornar-se amargurada (dúvida volicional). Parece ser extremamente difícil tirar alguém dessa forma de dúvida.[3]
Quer a dúvida surja das nossas oscilações de “humor” quer surja de nossos sinceros questionamentos intelectuais, o efeito costuma ser o mesmo: ociosidade, paralisia ou apatia espiritual. Por exemplo: por que uma pessoa deveria orar, se ela duvida que haja um Deus do outro lado, ou pelo menos que existe um Deus que se importa com ela? Os Guinness descreve a dúvida como a “suspensão” da mente entre a fé e a descrença. Ele acrescenta: “Crer é estar decidido a aceitar algo como verdadeiro; descrer é estar decidido a rejeitá-lo; e duvidar é oscilar entre os dois, e, portanto, ficar com a mente dividida”.[4] Karl Barth chama a dúvida de “oscilação e hesitação entre o sim e o não”.[5] O termo “mente dividida” é uma excelente categoria bíblica para a dúvida. Ele captura a ideia de alguém que oscila entre duas opiniões, ou de alguém que “está com um pé em cada barco” como descreve um provérbio chinês. Mas a instigante palavra “suspensão”, usada por Guinness, define exatamente o que a dúvida faz conosco. Ela suspende o movimento. Isso causa uma desaceleração drástica. A dúvida nos derruba e pode nos levar à paralisia permanente (ou seja, à descrença) se não for tratada.
Os efeitos da dúvida religiosa
Diversos estudos investigaram o efeito da dúvida religiosa sobre os fiéis. Um desses estudos entrevistou 1.629 pessoas de diversas denominações, origens culturais e níveis de escolaridade – tanto casadas, quanto solteiras – provenientes de diferentes partes dos Estados Unidos. O questionário, composto por 135 itens, abordou questões relacionadas à dúvida religiosa, à prática religiosa e à saúde mental. O estudo constatou que a dúvida religiosa — neste caso, decorrente do problema do sofrimento e do mal — exercia um impacto negativo na saúde mental, manifestando-se particularmente na forma de depressão, ansiedade, paranoia, hostilidade e transtorno obsessivo-compulsivo.[6] Um estudo anterior, realizado com adultos a partir de 66 anos, revelou que a principal dúvida em relação à religião está associada a um declínio na satisfação com a vida, na autoestima e no otimismo. A dúvida religiosa, inclusive, pode prejudicar a saúde física (como por exemplo, a qualidade do sono). A maioria desses efeitos é mais prevalente entre populações mais jovens, diminuindo à medida que as pessoas envelhecem ou alcançam níveis mais elevados de escolaridade. Os efeitos negativos também são particularmente acentuados entre os líderes religiosos, cujos membros frequentemente se veem isolados e incapazes de compartilhar suas dúvidas com outras pessoas. Não surpreende, portanto, que estudos indiquem que indivíduos com maior certeza em suas crenças apresentem melhor saúde mental e emocional, provavelmente porque a fé lhes permite processar e lidar com fatores estressantes.[7]
O ponto fundamental é que a conexão intuitiva entre dúvida e apatia pode encontrar respaldo nos livros de psicologia e sociologia. É muito provável que a apatia seja um dos sintomas depressivos decorrentes da dúvida religiosa. Uma dúvida debilitada que drena o nosso vigor e prende nossos pés em blocos de concreto. G. K. Chesterton aponta nessa direção ao falar sobre os nobres céticos da modernidade: “Em suas dúvidas quanto aos milagres, havia uma fé em um destino fixo e desprovido de Deus; uma fé profunda e sincera na rotina imutável do cosmos”.[8] Eis a conexão: a dúvida sobre Deus e o milagroso inclina o indivíduo a uma espécie de fatalismo, uma rendição às forças inalteráveis da vida. Se o que tiver que acontecer, acontecerá independentemente de mim, por que me dar ao trabalho de participar? Além disso, ao persistirmos na dúvida, flertamos perigosamente com a famosa proposição de Friedrich Nietzsche de que “Deus está morto” — morto pela nossa descrença, relegado à irrelevância.[9] Em vez de fortalecer super-homens capazes de viver suas vidas com um senso de verdadeira autodeterminação, a descrença insidiosa conduz a um mundo desprovido de sentido. E um mundo sem sentido é um mundo pelo qual é difícil levantar-se de manhã.
A dúvida está na raiz da sua apatia? Que questões não resolvidas sobre Deus ou sua fé o impedem de se dedicar de todo o coração à sua vida espiritual?
Notas
[1] George MacDonald: An Anthology—365 Readings, ed. C. S. Lewis (New York: HarperCollins, 2001), 78.
[2] C. S. Lewis, Mere Christianity (Glasgow: Collins, 1977), 121–22. He describes faith as the art of holding on to things you once thought reasonable, in spite of your changing moods.
[3] Para uma discussão resumida veja: Gary R. Habermas, “When Religious Doubt Grows Agonizing”, Christian Research Journal 36, nº 2 (2013).
[4] Os Guinness, “I Believe in Doubt,” Tabletalk magazine, Jan. 1, 1992, https://www .ligonier.org/.
[5] Karl Barth, Evangelical Theology: An Introduction (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1992), 124.
[6] Kathleen Galek et al., “Religious Doubt and Mental Health across the Lifespan,” Journal of Adult Development 14 (2007): 16–25. Throughout this chapter, I’ve assumed the complexity of trying to detangle apathy from its cousins. For example, since apathy can be a symptom of depression, identifying the sources of depression would be a critical step toward healing both depression and apathy.
[7] Ver Neal Krause, “Religious Doubt and Psychological Well-Being: A Longitudinal Investigation,” Review of Religious Research 47 (2006): 287–302; Neal Krause and Keith M. Wulff, “Religious Doubt and Health: Exploring the Potential Dark Side of Religion,” Sociology of Religion 65 (2004): 35–56; Christopher Ellison et al., “Religious Resources, Spiritual Struggles, and Mental Health in a Nationwide Sample of PCUSA Clergy,” Pastoral Psychology 59 (2010): 287–304; Christopher Ellison et al., “Religious Doubts and Sleep Quality: Findings from a Nationwide Study of Presbyterians,” Review of Religious Research 53 (2011): 119–36; and Christopher Ellison, “Religious Involvement and Subjective Well-Being,” Journal of Health and Social Behavior 32 (1991): 80–99.
[8] G. K. Chesterton, Orthodoxy (London: Bodley Head, 1957), 217.
[9] Friedrich Nietzsche, The Gay Science, trans. Walter Kaufmann (New York: Vintage, 1974), 181–82.
Texto original: Is Doubt the Backstory Behind Your Apathy? Traduzido e publicado no site Cruciforme com permissão.
![]() | Uche Anizor (PhD, Wheaton College) é professor de teologia na Talbot School of Theology, da Biola University. É autor de diversos livros, incluindo The goodness of God and the gift of Scripture e How to read theology. |
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