Bem-aventurados os pobres de Espírito | Russell Shedd

Será que a dúvida é o que está por trás da sua apatia? | Uche Anizor
20/jul/2026
Será que a dúvida é o que está por trás da sua apatia? | Uche Anizor
20/jul/2026

The Sermon on the Mount Carl Bloch, 1890

 

Neste artigo, desejo abrir a sua mente e, especialmente, o seu coração para pensar sobre a exigência que todos nós temos de sermos santos. “Sede santos, porque eu sou santo”, disse o Senhor mais de uma vez, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (Levítico 11.44-45; 1 Pedro 1.16).

Essa é uma ordem que, à primeira vista, parece pesar sobre nós — mas a Bíblia revela algo surpreendente: já somos santos. Em várias ocasiões, as Escrituras chamam a igreja de “santos”, mas nunca chamam um de nós, individualmente, dessa forma. Paulo, por exemplo, não disse que Timóteo era um santo. Nossa santidade não é uma conquista pessoal, mas algo que vivemos em comunhão com o corpo de Cristo, relacionados com ele como nossa cabeça e com o Espírito Santo como nossa vida.

É justamente essa santidade — sem a qual ninguém verá a Deus — que deve nos levar a uma pergunta essencial: como avançamos naquilo que já somos? Afinal, somos santos, justificados, declarados justos, prontos para entrar no céu. Se alguém tiver uma trombose no coração e cair morto em nosso meio, nós podemos bater palmas, afinal, ele foi para o céu. Ao dizer isto, estou pressupondo que essa pessoa foi justificada. Nesse sentido, já somos santos e estamos preparados. No entanto, enquanto vivos, ainda precisamos nos preparar. Essa é uma das tensões que o Novo Testamento coloca diante de todos nós — e Jesus Cristo a expressou de uma forma extraordinária nas bem-aventuranças.

É por isso que quero refletir um pouco sobre esses requisitos: a bênção, a alegria e a felicidade dos santos precisam ser vividas diariamente, a toda hora, de maneira que Deus fique contente conosco e que possamos comprovar que, de fato, somos santos. Não creio que o Sermão do Monte tenha sido dado para que imaginássemos que só no milênio teremos essas características — pelo contrário, devemos tomá-las como nosso ideal para viver o dia a dia, desde o momento em que despertamos. Ou seja, hoje eu vou ser pobre de espírito; hoje eu vou ser uma pessoa que se entristece pelo seu pecado, consciente dele ao ponto de chorar. Que sejamos mansos, de tal forma que as pessoas que nos cercam percebam essa mansidão através do nosso contato com eles, fruto da nossa vida em Cristo pelo Espírito Santo.

Em Mateus 4.18-22 encontramos Jesus convidando alguns dos seus discípulos a segui-lo:

Andando às margens do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: Vinde a mim, e eu vos farei pescadores de homens. Imediatamente, eles deixaram as redes e o seguiram. Passando mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Ambos estavam num barco com seu pai Zebedeu, consertando as redes. E Jesus os chamou. Imediatamente, deixando o barco e seu pai, seguiram-no. (Mateus 4.18-22)

Não é de se estranhar que Jesus tivesse combinado, provavelmente com antecedência, esse convite com esses homens; pedindo que aprendessem com ele a alcançar uma mudança de coração. Não tanto de pensamento, mas de coração e de atitude. É justamente isso que encontramos no capítulo 5 nos seus ensinamentos no Sermão do Monte. Os discípulos seguiram Jesus por cerca de três anos — não temos certeza exata de quanto tempo ficaram com ele, mas o tempo é o que menos importa. O importante foi estar perto de Jesus, perto daquela mente divina e humana, e Ele transferia a eles o pensamento de Deus para a vida aqui na terra. Foi nesse contexto que Jesus se sentou no monte das bem-aventuranças, pertinho do lago da Galileia, e começou a ensinar. E as palavras que ele ensinou foram as seguintes:

Quando viu as multidões, Jesus subiu ao monte; havendo se sentado, seus discípulos se aproximaram, e ele começou a ensinar-lhes, dizendo: Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, pois verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino do céu. Bem-aventurados sois, quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, pois a vossa recompensa no céu é grande; porque assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós. (Mateus 5.1-12)

Pobre de espírito ou humilde de espírito é uma atitude de alguém que se reconhece derrotado, incapaz de produzir algo de valor para Deus. Obviamente, existem pessoas que nem sequer são crentes e que são tremendamente valiosas para outras pessoas. Mas ser humilde, ser pobre de espírito, é ser pobre diante de Deus.

Agora, já que toda a nossa exortação enfatiza a importância de cada um de nós em relação a Deus, precisamos de um contraponto: somos totalmente dispensáveis. Quando eu for enterrado, vocês podem bater palmas pois isso será a evidência de que Deus não precisava de mim nem mais um dia aqui nesta terra, e eu fui para a glória porque serei mais útil cantando louvores a Deus lá do que tentando influenciar pessoas aqui na terra. Só a pobreza de espírito nos ajuda a nos situar dentro do pensamento divino: Deus tem mil pessoas para substituir qualquer um de nós. Como essa ideia é complicada para nós.

Todos nós queremos ser ricos de espírito, acreditar que fazemos um trabalho que ninguém mais faz, e de uma forma que agrada tanto a Deus que ele precisa de nós. Mas a pobreza de espírito, irmãos, diz exatamente o contrário.

Um dia, enquanto trabalhava com meninos de rua no centro de São Paulo, na região da Praça Princesa Isabel, minha filha Helena voltou correndo para casa dizendo que a polícia havia chegado a um dos mocós que ficava debaixo da ponte e onde moravam cerca de 40 jovens, adolescentes e crianças. Quando estacionaram, na sequência empilharam toda a sujeira, os trapos imundos daquelas crianças, jogaram álcool por cima e queimaram tudo. Isto havia acontecido em junho e fazia frio. Diante disso, fiz uma pergunta para ela: “O que podemos levar para eles?”

Irmãos, por que será que os policiais não venderam aqueles trapos? Porque sabiam que ninguém pagaria nada por eles. Seria como qualquer pessoa que coloca seu lixo num saco e o deixa na rua para os lixeiros levarem. Precisamos perceber que, diante de Deus, não somos necessários, não somos impressionantes, não somos nada.

E agora vem o outro lado. Para algumas pessoas que Deus quer abençoar, podemos ser um canal — alguém que apenas conduz, como aqueles cabos que trazem de Itaipu essa força que nos ilumina, nos refresca e nos ajuda. Somos apenas canais. E, assim como acontece quando um fio falha e sempre há outro para substituí-lo, pela graça de Deus há sempre alguém disponível para tomar nosso lugar. Esse espírito — de estarmos sempre disponíveis, por um lado, e de termos a certeza de que Deus tem outro para nos colocar no nosso lugar, por outro — é o que deve nos tornar aquilo que o texto chama, em algumas versões, de pobres de espírito.

A definição que eu gostaria de registrar aqui é que os pobres de espírito são aqueles que colocam Cristo como Senhor do seu ego, que não desacreditam da avaliação que Deus faz de nós. Não tentamos convencer a Deus de que somos mais valiosos do que realmente somos, de que ele não pode usar outra pessoa tão bem quanto pode nos usar, ou de que nossa denominação e nossos rótulos são mais importantes do que os rótulos dos outros. Apenas somos bons condutores, e nosso ego realmente pertence a ele.

Um dos livros que vai abençoar muito a sua vida, mas que quase ninguém quer ler, chama-se Sete Pecados Capitais.[1] Nem todos nós pecamos em todos eles: a gula, por exemplo, que é um dos problemas mais comuns entre os evangélicos, já foi esquecida por muitos, ao ponto de restarem praticamente só seis pecados levados a sério. Mas Os Guinness, uma cabeça muito fértil que estudou com Francis Schaeffer e outros pensadores famosos, foi reunindo material para mostrar que os pecados capitais servem de contraponto às bem-aventuranças. É assim que a pobreza de espírito se expressa: como diz o próprio apóstolo Paulo aos filipenses, em considerar os outros mais impressionantes, mais capazes, mais úteis do que a nós mesmos (Filipenses 2.3).

Foi justamente isso que aqueles discípulos que Jesus convidou a segui-lo não haviam entendido até depois da ressurreição. Porém, após a vitória de Cristo sobre a morte, tudo mudou radicalmente. Pedro, que achava que era muito importante para Jesus, descobriu que era capaz de negá-lo e ser descartado; ainda assim, Jesus o recuperou para sua glória.

Havia também aqueles dois filhos que Jesus convidara a segui-lo, presentes no Evangelho de Mateus:

Então, se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o e fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.” E Jesus responde: “Certamente bebereis do meu cálice; mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; isso será dado para quem está preparado por meu Pai. (Mateus 20.20-23)

Mas quando leio a primeira carta de João, escrita por um daqueles mesmos discípulos, e quando penso em Tiago, que foi morto por Herodes no ano 44 (Atos 12.2), concluo: é isso mesmo. Deus escolhe quem ele quer usar, e quem ele não quer usar. E é justamente isso que estamos aprendendo nas bem-aventuranças.

Que Deus coloque no coração de cada leitor, durante todos os dias de nossas vidas, esta caminhada pela porta estreita. Essa jornada é complicada — é como para um camelo entrar pelo fundo de uma agulha. E são justamente os ricos de espírito, aqueles que têm tanto conhecimento, tantas habilidades, dons e capacidades, que enfrentam essa dificuldade. Que Deus nos ajude a passar pelo olho da agulha e, dessa maneira, sermos mais úteis ao nosso amado Deus e Pai.


Notas

[1] [1] GUINESS, Os. Steering Through Chaos: Vice and Virtue in an Age of Moral Confusion. NavPress Publishing Group, 2000.


Texto adaptado a partir da transcrição de uma mensagem de Russell Shedd, publicada originalmente no canal de Edições Vida Nova com o nome “Bem-aventurados os pobres de Espírito“.

 

Russell P. Shedd (1929-2016), Ph.D., foi fundador de Edições Vida Nova, conferencista internacional e pastor. Intensamente preocupado com a educação teológica e a formação de líderes para a igreja brasileira e dos países de língua portuguesa, foi durante mais de 40 anos professor de Novo Testamento nas melhores escolas teológicas de São Paulo e escreveu inúmeras obras publicadas por Edições Vida Nova e pela Shedd Publicações.

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