Três ideias para se recuperar do abuso espiritual | Dale Chamberlain

O abuso espiritual não é nada menos que demoníaco. Alegando falar em nome de Deus, os líderes espiritualmente abusivos manipulam e coagem os outros a se submeterem à sua vontade por meio do medo e da vergonha, muitas vezes escondendo seu abuso na linguagem bíblica e fingindo piedade espiritual.

O abuso espiritual é uma distorção do discipulado que leva as pessoas para longe de Jesus e para algumas das experiências mais sombrias de suas vidas ─ muitas vezes em nome de Jesus. Este é o trabalho do inimigo.

Tragicamente, o abuso espiritual não é incomum na experiência de muitos seguidores de Jesus. Um estudo realizado em 2018 sugeriu que até dois terços dos crentes sofreram abuso espiritual em diferentes graus.

Os resultados foram desastrosos para a alma das pessoas, com muitos jovens evangélicos abandonando sua fé em Jesus e na Igreja. Embora esta crise de desconversão tenha levado alguns líderes da Igreja a especular que o número crescente de ex-evangélicos está simplesmente seguindo uma tendência cultural, muitas vezes até mesmo rebaixando a prática do abuso espiritual a termos como “mágoa de igreja”, muitas das pessoas que se desconverteram citam o abuso espiritual como parte integrante de sua história de fé.

Embora nem toda igreja ou líder espiritual seja abusivo, o problema é galopante. Muitos cristãos foram feridos pelo abuso espiritual. Eu estou entre eles.

No entanto, não perdi as esperanças em Jesus ou em sua Igreja. E embora eu acredite que há muito que precisamos reformar à luz dessa realidade, também estou profundamente preocupado em um nível pessoal com aqueles que buscam cura após uma experiência de abuso espiritual. Apesar de tudo, acredito profundamente que a desconversão e o afastamento da Igreja não são a resposta.

Embora não possa afirmar que sou um especialista no tema, vejamos três ideias que considero úteis para recuperar-se do abuso espiritual.

1. Dê nome à sua dor

Minha criação na comunidade cristã foi repleta de abusos espirituais. Ao tentar me conformar às medidas de obediência que disseram que me tornariam um cristão fiel, a vergonha recaiu sobre mim por cada falha, e cada acusação possuía um texto-prova da Bíblia para sustentá-la. Durante todo o tempo as traves da fidelidade estavam em constante movimento, sempre fora do meu alcance.

Enquanto crescia, o abuso espiritual frequentemente dava lugar a elementos de abuso físico em minha casa. Hematomas e versículos bíblicos eram bizarros, mas, ainda assim, companheiros comuns. Tão comum, na verdade, que às vezes nem percebo a verdadeira natureza de algumas de minhas experiências até que as conto a um amigo íntimo ou ente querido e observo a expressão de genuíno horror em seus olhos. Levei anos ─ e na verdade ainda é um processo contínuo ─ para desvendar a teia emaranhada de abusos e enxergar a realidade como ela realmente é.

Como jovem pastor, experimentei abusos espirituais que me deixaram profundamente perplexo. Homens com autoridade espiritual falavam comigo de maneiras vis e ímpias, me intimidando fisicamente e falando de forma injusta e falsa sobre mim pelas minhas costas. Esses abusos se deram em resposta às minhas ações, que surgiram de um desejo sincero de espalhar o amor e a mensagem de Jesus para uma comunidade que precisava dele.

Ao refletir sobre isso, entendo que eu era jovem e inexperiente, e que minha abordagem nem sempre foi repleta da máxima sabedoria e prudência. No entanto, as reações que pareci provocar foram desproporcionais às minhas supostas ofensas.

Contudo, ao trazer à tona casos em que vivenciei crueldade e assédio, me disseram que era eu que estava interpretando mal a situação, tirando as coisas do contexto, fazendo tempestade em um copo d’água, causando divisão de maneira desnecessária e abrigando amargura e falta de perdão. Em suma, era eu quem precisava pedir desculpas.

Certa vez, um homem que tinha autoridade sobre mim me disse que eu precisava assumir o controle sobre as amizades que eu permitia que minha esposa tivesse, principalmente no que diz respeito a certas pessoas na igreja. As pessoas em relação às quais ele estava me advertindo, na minha opinião, eram gentis, compassivas, generosas e atenciosas. Elas exemplificavam o fruto do Espírito muito mais do que aquelas pessoas que as caluniavam e procuravam minimizar sua influência ─ principalmente diante da oposição e duras críticas.

Além do mais, essas foram as mesmas pessoas que ajudaram minha esposa a se sentir conhecida e amada em um ambiente que ela considerou bastante hostil a partir do momento em que se tornou parte daquela comunidade espiritual. Contudo, almoçar com essas pessoas era agora um sinal de minha obstinação espiritual e fracasso como líder espiritual de minha casa.

Cada uma dessas experiências foi profundamente dolorosa e incrivelmente desconcertante. Tanto que nem tenho palavras para expressar plenamente o sentimento de estupefata indignação. A situação é semelhante a um homem que está flutuando em uma jangada em um oceano sem fim, mas atingiu um ponto de delírio em que na verdade acha sua situação um tanto engraçada.

Nesses momentos, fico impressionado com o fato de que há algo profundamente fragmentado nas estruturas e sistemas de autoridade dentro da Igreja americana. E isso ocorre não apenas em minhas experiências pessoais, mas nas histórias que se multiplicam em igrejas de todos os tipos, tamanhos e características teológicas.

Como é possível que as pessoas que sofreram abusos espirituais possam estar, en masse, tão terrivelmente equivocadas na avaliação de suas experiências e das estruturas que contribuíram para elas? Ou somos loucos ou fomos levados a acreditar que somos loucos.

Estou convencido de que não sou louco. Estou convencido de que a dor que experimentei é legítima. Eu fui injustiçado. E embora eu certamente tenha cometido erros tanto em minhas ações que provocaram abuso quanto em minha resposta a esse abuso, o abuso ainda não se justifica. Nunca foi e nunca será justificado.

2. Retorne à ideia de que o evangelho é sobre liberdade, não controle

O abuso espiritual ─ junto com todas as outras formas de abuso ─ é marcado pela necessidade que os abusadores têm de manter o controle por meio do medo. O evangelho, por outro lado, é marcado pela liberdade por meio do perdão e da redenção.

Ao deixar um ambiente espiritualmente abusivo, dando um salto de fé e sem uma imagem clara do que estava por vir em minha jornada, um homem com autoridade espiritual expressou-me sua preocupação com a minha partida. Quando esse homem, que anteriormente havia me caluniado e repreendido, apertou minha mão, ele me disse sorridente: “Não acho que você saiba o que está fazendo”. Embora eu soubesse que estava tomando a decisão certa, essa declaração me abalou de medo.

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Até que o homem ao meu lado imediatamente inclinou a cabeça em direção ao que estava apertando minha mão e respondeu: “Ah, pare com isso. É de Dale que estamos falando. Ele vai ficar bem.” Naquele momento, Deus falou por meio daquele homem para afirmar o que eu já sabia em um nível mais profundo. Tudo ficaria bem.

No entanto, essa conversa ilustra que o uso do medo é uma característica marcante do controle abusivo, já que minha saída aparentemente abrupta não foi vista com bons olhos. Nas palavras do vilão de Star Wars, Grand Moff Tarkin, “O medo os manterá na linha”. E é verdade. O medo é uma ferramenta de controle altamente eficaz, buscando sempre nos impedir de exercer nossa liberdade, até mesmo de partir.

A boa notícia de Jesus é que, pelo poder de sua ressurreição e a presença permanente de seu Espírito Santo, ele está capacitando você para que livremente se torne a pessoa que ele o criou para ser. Os abusadores tentam ao máximo permitir que você siga apenas os passos que farão de você a pessoa que eles querem que você seja, isto é, uma pessoa que se encaixa na visão de poder e controle deles. Esse não é o caminho de Jesus.

Uma das principais metáforas que o Novo Testamento usa para descrever nossa salvação em Jesus é a da redenção. No mundo antigo, esse termo era usado com mais frequência em referência à escravidão. Quando uma pessoa escravizada recebia sua liberdade, geralmente por meio da generosidade de outra pessoa, a palavra que usavam para descrevê-la era redenção. Mas não seria realmente uma redenção se a pessoa que o resgatou, ou alguém que trabalhou para ela, buscasse controlá-lo depois que sua liberdade tivesse sido comprada.

É por isso que em Gálatas 5.1 Paulo diz: “para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Portanto, permanecei firmes e não vos sujeiteis novamente a um jugo de escravidão.”

3. Lembre-se de que a autoridade piedosa é algo bom

Ao compreender o evangelho como liberdade em contraste com o controle abusivo, é fácil presumir que a autoridade é em si o problema. Na verdade, foi essa conclusão que levou muitos a se afastarem totalmente da Igreja.

No entanto, a visão de Deus para a autoridade não é que ela seja inerentemente errada. Na verdade, é algo bom. Depois que Jesus ressuscitou dos mortos, ele disse aos seus apóstolos: “Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra” (Mt 28.18). Ele então exerceu essa autoridade ordenando-lhes que fizessem discípulos em seu nome.

Além do mais, embora Jesus seja apresentado em 1Pedro 5.4 como “o Supremo Pastor”, Pedro também revela que Jesus concedeu autoridade aos subpastores que têm autoridade espiritual na Igreja. A única coisa é que, para que alguém esteja qualificado para essa autoridade, Paulo nos diz, entre outras coisas, que esses líderes devem ser “não dados à violência, mas amáveis, inimigos de discórdias, não gananciosos” (1Tm 3.3).

A ausência dessas qualificações nos líderes espirituais frequentemente denuncia uma tendência evangélica de se colocar sob a autoridade de homens talentosos em vez de homens piedosos. E talvez seja por isso que o abuso espiritual é endêmico na experiência da Igreja de tantos seguidores de Jesus.

Mesmo assim, existem homens e mulheres bons e piedosos cujo desejo é guiar outras pessoas no caminho da redenção e liberdade que Jesus nos oferece. Algumas dessas pessoas podem ser os líderes de sua igreja.

Os líderes nem sempre serão perfeitos. Para algumas pessoas que estão lendo este texto, isso é um eufemismo sem paralelo até o momento. E o fato de que os líderes espirituais são pessoas imperfeitas nunca deve ser usado como desculpa para minimizar ou descartar o abuso. Mas nem todo líder que passa por momentos de oratória ruim, age muito precipitadamente ou mesmo emprega a mesma linguagem bíblica de seus agressores é um líder abusivo.

Às vezes, os líderes mais bem-intencionados dizem e fazem coisas que os sobreviventes de abusos espirituais veem como gatilhos emocionais. Nesses casos, uma de duas coisas pode ser verdade (e às vezes ambas são). Em primeiro lugar, pode ser uma oportunidade para o líder refinar a maneira como lidera à luz das experiências daqueles que estão sob sua liderança. O fato é que muitos pastores simplesmente não entendem a vastidão de contexto que você traz à tona à luz de suas experiências de abuso. E nunca entenderão, a menos que você, graciosa e amorosamente, os ajude a compreender.

Mas, em segundo lugar, esses momentos também são uma oportunidade para a cura. Por mais severo que isso possa soar em um momento de dor, a melhor resposta ao seu abuso pode não ser demolir todas as partes de todas as instituições. Mesmo que muitas estruturas e sistemas de autoridade precisem urgentemente de reforma ─ e você pode servir como um catalisador para essas reformas ─, os momentos de gatilhos emocionais também são uma oportunidade para mais uma vez dar nome à sua dor, lembrar-se da liberdade de Jesus e convidá-lo para promover a cura em seu coração.

O caminho para a cura não é linear 

Qualquer pessoa que tenha sofrido abusos dirá que a jornada para a cura nem sempre é um caminho reto. Na verdade, há momentos em que você se sente voltando às emoções e aos padrões de pensamento que marcaram o período de sua vida em que você estava sendo abusado. Mas por causa de Jesus, sempre há esperança de um caminho melhor adiante.

Para encontrar esse caminho, você precisará aceitar o fato de que há um crescimento que precisa ocorrer dentro de sua própria alma. Esse crescimento é mediado pelo Espírito Santo e pelos líderes espirituais que Deus colocou em sua vida.

A única coisa é que você deve se recusar a ancorar sua identidade em sua condição de vítima. Embora você possa ter sido horrivelmente vitimado e não tenha feito nada para merecê-lo, o abuso sofrido também não lhe proporcionou perfeição moral. E se decidir acreditar na mentira de que proporcionou, você nunca será verdadeiramente livre.

Isso não é o que Deus deseja para você. É para a liberdade que Cristo o libertou. Portanto, não retorne ao jugo da escravidão. Deus quer usar sua dor para trazer beleza, transformação e esperança. Embora os homens possam ter planejado isso para o mal, Jesus pode e vai usá-lo para o bem.

Traduzido e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: 3 Thoughts for Coming Back from Spiritual Abuse. Her&Hymn.

Dale Chamberlain (M.Div. Talbot School of Theology) é pastor, podcaster e escreve com sua esposa Tamara no blog Her&Hymn.

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