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Uma das questões mais polêmicas na igreja hoje, pelo menos no meu contexto, diz respeito à interpretação dos dias da Criação em Gênesis 1. Um radialista cristão me disse uma vez que havia três tópicos sobre os quais a estação sabia de antemão que receberia chamadas telefônicas quando mencionados em uma transmissão, não importa a perspectiva oferecida: racismo, Donald Trump e Criação.

Albert Mohler, que tem sido fundamental na popularização da teoria da “triagem teológica”, é um defensor declarado do conceito designado “Terra Jovem”. Ele, no entanto, identifica o debate sobre os dias da Criação como uma doutrina terciária, ao afirmar não só que tem muitos amigos que defendem posições opostas, mas que os contrata como professores.[1] Deixe-me fazer algumas observações breves em concordância com a classificação de Mohler sobre o debate.

Como ocorre com o debate sobre o milênio, diferentes pontos de vista sobre Gênesis 1 contam com menos relevância prática para a organização da igreja local, da adoração, do evangelismo e do testemunho do evangelho do que uma série de outras doutrinas. Alguns criacionistas da Terra Jovem contestam a afirmação, é claro. Alguns até argumentam que interpretar os dias de Gênesis 1 como algo diferente de 24 horas prejudica o próprio evangelho, efetivamente tornando a questão uma doutrina primária. Eles alegam que, se “transigirmos” na leitura literal do primeiro capítulo da Bíblia, por que não transigirmos em outro lugar? Outros afirmam que permitir a morte de animais antes da Queda humana torna Deus o autor do mal. Os proponentes dessa linha interpretativa são bastante francos, e ela foi adotada em muitas igrejas evangélicas americanas.

Em ambos os pontos, a história pode mais uma vez fornecer uma perspectiva valiosa. Os dias da Criação nem sempre foram tão divisionistas, mesmo desde Darwin. Nos círculos evangélicos, em particular nos círculos evangélicos americanos desde a década de 1960, o debate sobre a criação se desenvolveu de forma excêntrica e tacanha.

Por exemplo, muitos protestantes conservadores, no século 19 e no início do século 20, não hesitaram em tentar conciliar Gênesis 1 com dados geológicos para indicar um planeta mais antigo e um Universo mais antigo. Muitos críticos proeminentes do liberalismo teológico, como Machen, e defensores de uma visão ortodoxa da Escritura, como Warfield, afirmaram a Terra mais antiga e o Universo mais antigo, e não tiveram problemas em conciliar isso com Gênesis 1. Pode-se dizer o mesmo de uma enorme variedade de líderes cristãos que representam diversos lugares e tradições, do pregador batista Charles H. Spurgeon ao clérigo escocês Thomas Chalmers, ao teólogo holandês reformado Herman Bavinck, a líderes evangélicos como Carl Henry nos Estados Unidos ou John Stott na Grã-Bretanha — e assim por diante.[2]

Tome Spurgeon como exemplo. Em um sermão sobre o Espírito Santo, pregado em 17 de junho de 1855, quatro anos antes da publicação de On the Origin of Species [A origem das espécies], de Darwin, ele citou Gênesis 1.2 e então afirmou:

Não sabemos quão antigo pode ser o período da Criação deste globo —certamente muitos milhões de anos antes da época de Adão. Nosso planeta passou por vários estágios de existência, e diferentes tipos de criaturas viveram em sua superfície, todas moldadas por Deus.[3]

Spurgeon passou a descrever o papel do Espírito em trazer ordem ao caos no processo de criação, citando um poema de John Milton para destacar o poder do Espírito nessa função. Em um sermão alguns meses depois, ele declarou:

Descobrimos que, milhares de anos antes, Deus estava preparando a matéria caótica para torná-la a morada adequada para o homem, colocando nela raças de criaturas que poderiam morrer e deixar para trás as marcas de sua obra e habilidade maravilhosa antes que Ele colocasse sua mão sobre o homem.[4]

O mais impressionante, talvez, não seja a afirmação de Spurgeon sobre “milhões de anos antes de Adão”, mas a aparente falta de ansiedade ou dificuldade em aceitar a noção sem muita argumentação ou preocupação no contexto do sermão.

As coisas mudaram desde os dias de Spurgeon. As opiniões sobre a Criação se tornaram mais polarizadas à medida que o debate entre Criação e evolução se tornou um ponto de ebulição mais visível ao público na cultura americana por meio de eventos como o julgamento de Scopes na década de 1920 e, em particular, desde o lançamento do movimento “criacionista da Terra Jovem” em 1961, com a publicação de The Genesis Flood [O Dilúvio de Gênesis], de John Whitcomb e Henry Morris.[5] Antes disso, a maioria dos cristãos não insistia no criacionismo da Terra Jovem nem ele era percebido amplamente como a interpretação cristã conservadora ou o padrão. A Scofield Reference Bible [Bíblia de referência Scofield], muito popular no início do século 20, havia defendido a teoria da lacuna, uma espécie  de criacionismo da Terra Antiga. William Jennings Bryan (que representou a acusação no julgamento de Scopes) defendeu um conceito do dia a dia; essa também é uma interpretação criacionista da Terra Antiga de Gênesis 1.[6] Essas opiniões eram comuns o suficiente para que, surpreendentemente, a editora evangélica conservadora Moody Press até mesmo se recusasse a publicar The Genesis Flood devido à preocupação de que “a firme insistência em seis dias literais pudesse ofender seus leitores”.[7] Como Tim Keller resume:

Apesar da impressão generalizada em contrário, tanto na igreja como fora dela, a ciência da Criação atual não representou a resposta tradicional dos protestantes conservadores e evangélicos no século 19, quando a teoria de Darwin se tornou conhecida. […] Reuben A. Torrey, o editor fundamentalista de The Fundamentals [Os fundamentos] (publicado entre 1910 e 1915, que definiu o termo “fundamentalista”), afirmou a possibilidade de “acreditar profundamente na infalibilidade da Bíblia e ainda ser evolucionista de um certo tipo…”. O homem que definiu a doutrina da inerrância bíblica, Benjamin B. Warfield, de Princeton (m. 1921), cria que Deus poderia ter usado algo semelhante à evolução para criar formas de vida.[8]

Além disso, não só na era moderna os cristãos têm lido Gênesis 1 de forma diferente. Muitos na igreja primitiva, muito antes de qualquer pressão das descobertas científicas sobre a idade do universo, sustentavam que os dias de Gênesis 1 não eram períodos de 24 horas. Agostinho, por exemplo, no quarto e no quinto séculos, escreveu diversos comentários sobre Gênesis. Em seu esforço final, um comentário “literal” sobre Gênesis, ele enfatizou a dificuldade da pergunta: “É uma tarefa árdua e muito difícil para nós chegarmos ao que o escritor quis dizer com esses seis dias, por mais que concentremos a atenção e animemos a mente”.[9]

A luta de Agostinho com Gênesis 1 contraria quem afirma que a interpretação do texto é uma questão de obviedade ou bom senso. Em última análise, a respeito da relação dos dias de 24 horas como os conhecemos com os “dias” de Gênesis 1, Agostinho afirmou: “Não se deve duvidar de que não são de forma alguma como eles, mas muito, muito diferentes”.[10] Agostinho entendeu a representação da obra da criação de Deus em sete dias como uma acomodação à compreensão humana, fazendo uma comparação entre a criação divina e a semana de trabalho humana. Agostinho chegou a esse ponto de vista por uma série de razões textuais, incluindo o problema da luz que surge no primeiro dia, antes dos luminares no quarto dia, o problema da cronologia equivocada, introduzida em Gênesis 2.4-6, e a apresentação do descanso divino no sétimo dia.[11]

Os primeiros cristãos também contavam com percepções sobre a morte dos animais diferentes das que são comuns hoje. Ao responder às críticas dos maniqueístas sobre a Criação, Agostinho defendeu vigorosamente a bondade da morte de animais e plantas antes da Queda:

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É ridículo condenar as falhas das feras e das árvores, e outras coisas mortais e mutáveis que são desprovidas de inteligência, sensação ou vida, embora essas falhas devam destruir sua natureza corruptível; pois essas criaturas receberam, à vontade de seu Criador, a existência adequada a elas.[12]

Ambrósio e Basílio, nas famosas análises dos dias da Criação, enfatizaram a sabedoria divina ao criar animais carnívoros. Basílio, por exemplo, alertou contra avaliações precipitadas sobre como Deus criou o reino animal:

Que ninguém acuse o Criador de ter produzido animais peçonhentos, destruidores e inimigos de nossa vida. Do contrário, que considerem um crime do mestre-escola disciplinar a inquietação da juventude com o uso da vara e do chicote para manter a ordem.[13]

No período medieval, Tomás de Aquino afirmou: “A natureza dos animais não foi mudada pelo pecado do homem, como se aqueles cuja natureza agora é devorar a carne de outros tivessem vivido de ervas, como o leão e o falcão”.[14]

Esse pano de fundo histórico fornece o contexto para os debates atuais sobre a Criação. Também ajuda a perceber que muitos apoiadores da leitura “histórica” de Gênesis 1 não interpretam os dias como dias literais de 24 horas. A questão não é se, mas como Gênesis 1 narra a história. Quase todos os comentaristas reconhecem as diferenças de linguagem e estilo entre Gênesis 1.1 a 2.3 e o restante do livro, bem como entre a narrativa ilustrada e mais comprimida de Gênesis 1 a 11 e a narrativa subsequente dos capítulos 12 a 50.[15] A Bíblia usa diversos gêneros literários para relatar ocorrências históricas, e muitas passagens históricas empregam linguagem estilizada, simbólica ou elevada. As descrições poéticas de Davi sobre a salvação no salmo 18, as visões noturnas de Zacarias 1 a 6, a canção de Débora e Baraque em Juízes 5 e as visões apocalípticas de João em Apocalipse dizem respeito a eventos transcorridos na história. Entretanto, constituiria um descuido hermenêutico ler essas passagens como se leem os Evangelhos — considerados pertencentes ao gênero de biografia antiga. Deve-se trabalhar muito para identificar e compreender o caráter literário de cada passagem em que a Bíblia narra acontecimentos históricos, incluindo Gênesis 1.[16]

Muito mais precisa ser dito sobre o debate acerca da Criação, mas espero que as afirmações encontradas aqui pelo menos promovam mais humildade e capacidade receptiva no processo. Pense que, se você aceita apenas interpretações de Gênesis 1 de dias de 24 horas literais na igreja ou em seu círculo teológico, estes cristãos se tornam inaceitáveis para você: Agostinho, Charles H. Spurgeon, Benjamin Warfield e Carl Henry. Isso parece certo? É exatamente o tipo de situação em que a triagem teológica pediria cautela.

Pode-se coexistir com alegria em uma igreja em meio a diferenças sobre o tema. Nossa unidade em torno do evangelho não está em jogo. Em vez disso, devemos dar mais foco aos aspectos clássicos da doutrina da Criação enfatizados pelos cristãos distintos da cosmovisão judaico-cristã — como a criação ex nihilo, a historicidade da Queda e o fato de os seres humanos terem sido criados à imagem de Deus. Eis os melhores pontos pelos quais vale a pena lutar.

______________

[1] O comentário foi feito durante uma discussão com C. John Collins sobre a questão “Does Scripture speak definitively to the age of the universe?” [“A Escritura fala definitivamente sobre a idade do universo?”], realizada na Trinity Evangelical Divinity School em fevereiro de 2017. Disponível em: http://henry center.tiu.edu/resource/genesis-the-age-of-the-earth-does-scripture-speak-definitively–on-the-age-of-the-universe.

[2] Para mais leituras, veja Ronald L. Numbers, The creationists: from scientific creationism to intelligent design, 2. ed. (Cambridge: Harvard University Press, 2006) e R. J. Berry; T. A. Noble, orgs., Darwin, Creation, and the Fall: theological challenges (Nottingham: Apollos, 2009).

[3] Charles Spurgeon, sermon 30, “The power of the Holy Ghost”, in: The complete works of C. H. Spurgeon, sermons 1 to 53 (Cleveland: Pilgrim, 2013), vol. 1, p. 88.

[4] Charles Spurgeon, sermons 41-42, “Unconditional election”, in: The complete works of C. H. Spurgeon, vol. 1, p. 122.

[5] John C. Whitcomb; Henry M. Morris, The Genesis flood: the biblical record and its scientific implications (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1961).

[6] A teoria da lacuna, popularizada por Thomas Chalmers no século 19, afirma uma lacuna entre Gênesis 1.1 e 1.2, enquanto a visão diurna vê os “dias” como longas épocas de tempo.

[7] Matthew Barrett; Ardel B. Caneday, in: Introdução a Matthew Barrett; Ardel B. Caneday, orgs., Four views on the historical Adam, Counterpoints (Grand Rapids: Zondervan, 2013), p. 19.

[8] Tim Keller, The reason for God: belief in an age of skepticism (New York: Dutton, 2008), p. 262, n. 18 [publicado em português por Vida Nova sob o título A fé na era do ceticismo: como a razão explica Deus].

[9] Augustine [Agostinho], John E. Rotelle, org., On Genesis: a refutation of the Manichees,… the literal meaning of Genesis, tradução para o inglês de Edmund Hill (Hyde Park: New City, 2002), p. 241.

[10] Augustine, Literal meaning of Genesis, p. 267.

[11] Analiso os pontos de vista de Agostinho em: Gavin Ortlund, Retrieving Augustine’s doctrine of Creation: ancient wisdom for current controversy (Downers Grove: IVP Academic, 2020).

[12] Augustine, The city of God 12.4, tradução para o inglês de Marcus Dods (New York: Modern Library, 2000), p. 383 [publicado em português por Vozes sob o título A cidade de Deus].

[13] Basil, Hexaemeron 9.5, in: Basil, Letters and selected works, Philip Schaff; Henry Wace, orgs., Nicene and Post-Nicene Fathers, tradução para o inglês de Blomfield Jackson (Peabody: Hendrickson, 1994), vol. 8, p. 105.

[14] Thomas de Aquino, Summa theologica, tradução para o inglês dos padres da província dominicana inglesa (Notre Dame: Christian Classics, 1948), I, q. 96, art. 1, p. 486 [publicado em português por Loyola sob o título Suma teológica e por Eclesiae sob o título Suma teológica].

[15] Pode-se ler uma expressão eloquente desse argumento em J. I. Packer, “Hermeneutics and Genesis 1—11”, Southwestern Journal of Theology 44, n. 1 (2001).

[16] Uma boa fonte é V. Philips Long, The art of biblical history, Série Foundations of Contemporary Interpretation (Grand Rapids: Zondervan, 1994).

Trecho extraído da obra “Questões doutrinárias pelas quais vale a pena lutar: em defesa da triagem teológica”, de Gavin Ortlund, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2022, p. 144-151. Traduzido por Rogério Portella. Publicado no site Cruciforme com permissão.

Gavin Ortlund (PhD, Fuller Theological Seminary) é marido, pai, ministro e professor visitante no ministério Reasons to Believe. É autor de muitos livros, incluindo Ascending Toward the Beatific Vision: Heaven as the Climax of Anselm’s Proslogion (Brill). Gavin escreve regularmente no blog Soliloquium.
Na teologia, como na guerra, existem alguns pontos pelos quais vale a pena lutar. Mas como podemos saber quais são esses pontos? Quando a doutrina inevitavelmente divide e quando a unidade deve prevalecer a despeito das divergências? Como o médico, que no campo de batalha trata primeiro dos mais gravemente feridos e depois passa para os demais, devemos dar prioridade às doutrinas por ordem de importância. O pastor Gavin Ortlund nos aconselha a cultivarmos a humildade à medida que damos prioridade à doutrina em quatro categorias: essencial, urgente, importante e menos importante. Assim seremos mais eficientes no progresso do evangelho em nossos dias.

Publicado por Vida Nova.

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